Por que se orgulhar faz bem à saúde LGBTQIA+?

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Junho é o mês do orgulho LGBTQIA+. Em 28 de junho de 1969, o grupo de pessoas travestis, transexuais, gays, lésbicas e bissexuais que frequentavam o bar “Stonewall Inn” resolveu se revoltar – leiam resolveram mostrar a força das monas, das minas e dos manos contra a truculência do sistema LGBTfóbico – contra a violência policial que acontecia frequentemente em Nova Iorque, trazendo então uma onda de manifestações em prol do respeito e pelos direitos das pessoas LGBTQIA+. Essa onda se refletiu por todo o mundo, colocando as pessoas LGBTQIA+ nas ruas, lutando por seus direitos de existiram sem serem violentadas pelo sistema e seus aparatos.

E isso refletiu e ainda reflete muito no direito à saúde para nossa população até hoje. Desde a luta pelo uso do nome social até a inserção dentro do sistema de saúde, dentro do cuidado integral, passando pela a luta pela disseminação do acesso à tratamento e prevenção do HIV/AID, cirurgias de transgenitalização, processos de hormonização de pessoas travestis e transexuais e tantas outras lutas.

No Brasil, a luta pela liberdade sexual, reflexo do Woodstock e da Revolta de Stonewall, teve um embate gigantesco junto ao período de ditadura militar iniciado no Brasil em 1964, ofuscando nossa luta e jogando mais uma vez nossa população para a margem da sociedade que nos considerava aberrações.

Como já falado no vídeo que fizemos para o canal do YouTube do Dentro do Meio, ainda no período de ditadura, o grupo SOMOS, fundado no final dos anos 80, já pautava direitos da nossa população. Mais adiante, vemos a Associação das Travestis e Liberados do RJ (Astral – hoje ANTRA), pautando no governo o atendimento para suas demandas específicas, além também de sua grande atuação nas ações de prevenção da aids.

Com a Reforma Sanitária – Criação do SUS a partir da constituição cidadã em 1988 – vemos que a saúde se torna um direito de todas e todos, porém nossas pautas de saúde só foram realmente colocadas nas políticas públicas mais recentemente com o programa “Brasil sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania Homossexual” em 2004 e também com o Programa Mais Saúde – Direito de Todo (2008), durante o governo Lula. Ambos os programas trouxeram para a luz nossas pautas específicas, nossos anseios e as defasagens dentro do SUS para com o acesso da nossa população.

A mulher trans que não tem ainda seu nome retificado sendo chamada pelo nome de registro no meio de uma sala de espera afasta até hoje a mesma do cuidado em relação ao seu processo de hormonização, dos efeitos que hormônios fazem no corpo e da possibilidade, caso ela deseje, de realizar acompanhamento com profissionais de saúde mental por conta dos ataques que sua patologização pela sociedade transfóbica.

O homem trans tendo que se submeter a consultas com nome de “saúde da mulher” para realizar seu exame de Papanicolau de rotina para prevenção do câncer de colo de útero também é um entrave no acesso à essa população.

Homens gays e bissexuais que fazem sexo anal e nas práticas realizam cunete são mais vulneráveis à infecções sexualmente transmissíveis não por serem quem são, e sim por falta de informação sobre práticas sexuais com prevenção, uso de lubrificante para diminuir o atrito na mucosa anal e diminuir as chances de aquisição de HIV, ou acesso à vacina da Hepatite A que pode ser fatal em adultos se não tratada.

São pequenas práticas que se tornam muito grandes e trazem à nossa população mais vulnerabilidade por não termos o acesso à saúde, não termos profissionais de saúde qualificados para discutir nossas particularidades e entendê-las para propor a intervenção correta, ou mesmo quebrar preconceitos da população que convive conosco. Não somos mais e, principalmente, não somos menos que ninguém dentro do sistema de saúde.

E orgulhar-se todos os dias traz para nós a força necessária para essa luta diária da construção de um sistema de saúde público, de qualidade, que viabiliza o acesso e o acolhimento dos LGBTQIA+ com suas particularidades, sem que o preconceito sirva de pano de fundo para nossas práticas sexuais ou manifestações de gênero.

Orgulhar-se faz parte da construção de uma comunidade forte, que entende seu poder e luta nos diversos cenários, seja como paciente ou como profissional de saúde, para melhorias e construção de políticas públicas de atendimento e formação voltada às nossas pautas.

Eu tenho orgulho de ser um homem gay cis afeminado, médico, que onde quer que esteja, luta pelos direitos da minha comunidade pensando em todas às letras que me cercam, tentando mostrar aos meus colegas médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionais etc, como eu gostaria de ser atendido pela equipe multiprofissional num momento de vulnerabilidade que é estar doente ou mesmo estar tentando não ficar doente.

Cabe a nós, LGBTQIA+, lutar por esse espaço, derrubar governos que nos colocam como margem, expor atitudes LGBTfóbicas dentro do sistema de saúde e questionar diariamente à nós mesmos nossas condutas e atitudes.

Estamos numa eterna construção, ninguém nasce pronto, se faz com convívio e respeito. Que junho traga para nós força para seguirmos o restante dos meses, sendo quem somos, colocando a cara nas ruas, seja no sol ou na chuva, mas o mais importante: sendo quem somos. Comunidade LGBTQIA+, estamos nessa juntos.

Comentários

Felipe Medeiros
Felipe é médico, gay, faz residência de infectologia, vive com seus dois gatos e também é pai de 4 cachorros bem fofos. Se envolveu com saúde LGBT desde a faculdade e desde então se tornou uma poc militante das bem fervorosas.
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