Faixa a faixa: Jup do Bairro lança e comenta Corpo Sem Juízo

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A primeira vez que ouvimos falar de Corpo Sem Juízo foi em ainda em 2019, quando Jup do Bairro lançou o single e um pequeno vislumbre do que seria o EP que, depois de meses de espera, nasceu nesta quinta (11).

Ao todo, o projeto tem 7 faixas, incluindo a parceria com Linn da Quebrada e Rico Dalassam, que mostram mais facetas da multiartista e, segundo a própria, “passa por três fases de um corpo: nascimento, vida e morte… Não necessariamente nesta ordem pois eu sinto que já nasci e morri tantas vezes”, conta Jup numa carta aberta enviada para imprensa.

Embora só tenhamos tido o primeiro gostinho de Corpo Sem Juízo no ano passando, as letras das músicas vinham sendo escritas desde 2017. “Sinto que sou a criadora e a criatura do que me tornei hoje, do que venho me tornando e a capacidade do que ainda não conheço em mim, mas quero descobrir”, escreve.

Faixa a faixa

Na carta, Jup também comenta faixa a faixa do álbum e nós dividimos com vocês. Confira:

“TRANSGRESSÃO”, é um dos nortes possíveis que encontrei de iniciar esse trabalho. Narro meus trânsitos e transições como um processo de crisálida. Um corpo que renasce de uma outra forma, assim como antecede a metamorfose de uma borboleta; ovo, larva e pupa. Em tantos momentos tudo esteve tão escuro pra mim, tão quente, tão frio…

Mas ao enxergar uma luz, uma possibilidade, vi que era capaz de reinventar um lugar/plano/espaço para alcançar voos maiores, como sonhos nunca imagináveis. Fazendo de flores e amores curtas moradas, ao voar primeira vezes, tentarei ficar por cima do solo o máximo que eu puder.

As questões de gênero e sexualidade sempre são impostas enquanto performance antes mesmo de nascermos e registro isso em “o que pode um corpo sem juízo?” questionando esse lugar que amplifica-se ao decorrer de nossas vidas.

“PELO AMOR DE DEIZE” marca o momento em que a vida acontece permeando a narrativa de uma pessoa preta, sob o signo feminino, pobre, marginalizada e sem juízo. Um corpo suspenso a depressão, ansiedade e desgosto. Conto com a parceria de Deize Tigrona ao criar a possibilidade de uma nova narrativa para nossos corpos que não seja a cavidade de nossas camas, como um despertador. O 
heavy metal, presente nas minhas referências de infância em adolescência, é a trilha que acompanha esse apelo criando uma sonoridade massiva e encorpada. É um clamor de urgência, agilidade e resinificação.

A vida também nos trás prazeres, desejos, afetos… E é aí que nasce “ALL YOU NEED IS LOVE”. Com um tom sarcástico e malicioso, componho essa canção justamente com Rico Dalasam e aciono Linn da Quebrada para o time de intérpretes para falarmos de amor. Mas não se engane achando que “ALL YOU NEED IS LOVE” é uma canção única e exclusivamente para sua playlist de sexo. É a transformação do amor, do que é amar, protagonizado por três corpos pretos, muitas vezes indignos desse sentimento em sua versão ocidental, embranquecida pelo eurocentrismo e cisheteronormativa criando novos sentidos tão plurais quanto o que pode ser o amor.

“O CORRE” conta uma parte da minha história de uma maneira tragicômica. Com referências do rap nacional dos anos 90 na melodia, marca uma memória nostálgica de como 
Sueli, minha mãe, me fortaleceu nessa caminhada e também como me virei até conquistar meu “malote”. Uma letra divertida, ácida e cheia de referências presentes na infância de uma jovem da periferia. Como um epitáfio que viaja no tempo pra narrar esse conto que não é de fadas.

A última faixa do EP é “LUTA POR MIM”. Em parceria com o cantor e compositor Mulambo, a canção serve como uma espécie de manifesto e desabafo sobre nossos corpos pretos. Produzido pelo Pininga, a “balada sonora 80s” é um dos elementos que contemplam esse trabalho. Uma triste análise que poderia ter sido escrita hoje, agora, neste momento que escrevo esse texto. Mas há uma profetização sobre esses corpos. A faixa termina com “eu não vou morrer”. E não vamos.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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