“Não queria me assumir assim”, diz autora de Love, Simon

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Becky Albertalli, autora do livro Simon Contra a Agenda Homosapiens, que ganhou um filme intitulado Love, Simon e um spin off na Hulu batizado de Love, Victor fez uma longuíssima postagem para rebater as críticas por “lucrar com histórias que nunca viveu” e disse que quando jovem se interessou por garotas.

Postado no Medium na última segunda-feira (31), o texto de Albertalli revisita boa parte da vida dela, passando pela criação no “subúrbio conservador do Sul dos EUA”, pelas entrevistas nas quais questionavam as inspirações para escrever o best seller com protagonista gay chegando até as especulações no twitter. “Deixe-me ser perfeitamente claro: não era assim que eu queria sair. Isso não parece bom ou empoderador, ou mesmo particularmente seguro”

“Eu nunca beijei uma garota. Eu nem mesmo percebi que eu queria.
Mas se eu retroceder ainda mais, tenho certeza que tive uma queda por meninos e meninas durante a maior parte da minha vida. Eu só não sabia que as paixões por garotas eram paixões”, escreveu Becky em uma parte do texto.

Ela disse lembrar da preocupação por ficar fascinada por algumas meninas, mas que o cérebro dela editava os sentimentos rejeitados fazendo com que ela nunca questionasse uma possível bissexualidade enquanto crescia e com o tempo, por não ter certeza do conceito da orientação, acabou deixando de pensar no assunto até escrever a sequência de Love, Simon.

“Foi a primeira vez que escrevi uma história de amor entre duas garotas – na verdade, foi a primeira vez que escrevi da perspectiva de um personagem que se sente atraído por garotas”, pontuou.

Becky prosseguiu escrevendo que mais uma vez ignorou o que sentia enquanto escrevia justificando tudo com “coisa de escritor”, mas que com a adaptação do livro para o cinema, muita gente começou a questionar o porquê de uma mulher hétero e cis estar escrevendo sobre coisas das quais ela não se encaixava.

“Em muitos espaços online, minha heterossexualidade foi um trampolim para algumas – legitimamente importantes – conversas sobre representatividade, autenticidade e propriedade de histórias. E para algumas pessoas, minha heterossexualidade foi suficiente para boicotar completamente o filme”.

Com as críticas, Albertalli voltou a questionar o sentimentos e relembrar momentos em que a própria orientação sexual era colocada em xeque e então notou que, apesar de ter vivido como hétero, havia a possibilidade de ser bissexual.

“Mas os rótulos mudam às vezes. Isso é o que todo mundo sempre diz, certo? Está tudo bem se você não se assumir. Tudo bem se você não estiver pronto. Tudo bem se você ainda não entender completamente sua identidade. Não há limite de tempo nem limite de idade, nenhuma maneira certa de ser gay”, escreveu começando a mudar o tom do texto.

A partir deste ponto, Becky começa a deixar mais claro o quanto foi machucada de 2018 até agora por especulações sobre a sexualidade dela e o quanto as pessoas foram cruéis ao tentar tirá-la do armário sem que ela própria tivesse certeza do que sentia.

A autora apontou que usaram movimento importantes como o #OwnVoices (hashtag usada para exaltar autores assumidamente LGBTs que escrevem sobre personagens LGBTs) para tentar pressioná-la a se assumir ou deixar de escrever sobre determinados temas e disse o quanto isso pode ser prejudicial para outras pessoas.

“Eu sou extremamente privilegiada e de mais formas do que posso contar. E isso ainda era brutalmente difícil para mim. Eu nem consigo imaginar como é para outros escritores enrustidos e como eles devem se sentir indesejados nesta comunidade”, argumentou.

Becky ainda enfatizou que se assumir agora não é uma tentativa de barrar críticas legítimas as suas obras, mas um pedido de empatia e compreensão o tempo de cada pessoa. “Podemos abrir espaço para aqueles de nós que ainda estão se descobrindo? Podemos ser um pouco mais compassivos? Podemos tornar isso um pouco menos terrível para a próxima pessoa?”, questiona.

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Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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