“Pornô nacional tem como base o preconceito”, diz Yuri Oberon

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Com o perdão do trocadilho, vamos aproveitar que sexta-feira, 13, está intimamente ligada a figura do gato preto para cumprir a promessa que fizemos na matéria sobre As transformações do mercado pornô nacional e publicar a entrevista com Yuri Oberon.

O ator, que já trabalhou com produtoras dentro e fora do país, começou a se destacar por postar conteúdo adulto e próprio pelas redes sociais. Na época, a intenção era apenas divulgar o trabalho de acompanhante, mas, seguindo o conselho do também ator pornô Felipe Leonel, Yuri passou a investir mais na atuação.

Oberon conversou com o Dentro Do Meio sobre o início da carreira, fez críticas sobre a falta de inclusão da indústria pornográfica nacional, falou sobre estereótipos do corpo negro em filmes adultos e também sobre os próximos passos da carreira. Abaixo você lê na integra o bate-papo com Yuri Oberon.

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Dentro Do Meio: Como se tornou ator pornô?

Yuri Oberon: Comecei a perceber com mais detalhes minhas relações quando eu perdi meu trabalho formal. Foi onde vi, que muitas delas já tinham uma ligação de poder que era o pilar financeiro. Ou seja, muitos dos caras que eu saí me pagavam de diversas formas pelos encontros e, em troca, não tinham a obrigatoriedade de titular do relacionamento ali vivido. Nesse período, eu estava começando a faculdade de publicidade, me conhecendo melhor e explorando várias coisas da minha sexualidade. Foi então que comecei uma conta no Twitter, a fim de divulgar meu material e conseguir clientes para trabalhar como acompanhante. Além disso, frequentava saunas no rio de janeiro, onde fazia esses programas também. Numa dessas, conheci um ator, o Felipe Leonel. Ele insistiu em dizer: “você é lindo e dotado, além de simpático, precisa fazer pornô.”. De alguma forma, aquilo ficou na minha mente.
Com isso, gravei uma cena amadora, sendo passivo com o Guttão, que é um fenômeno na Net, além de uma cena com o grande Marcos Goiano e isso repercutiu muito. Depois disso, meu Twitter não parou de crescer. Até que um dia a produtora norte-americana PapiCock me contatou com interesse em gravar. Eu aceitei de imediato mas com a condição de que esse filme fosse solo, já que ali seria minha primeira experiência. Uns seis meses depois de gravar o solo, ele foi lançado nas redes. A repercussão apenas cresceu e a HotBoys também me convidou.
Meu primeiro filme nacional foi com o Christian Hupper e, diga-se de passagem, que cena é aquela senhora é senhores! Foi pura química e tesão. A gente até repetiu a parceria para um vídeo no OnlyFans, aguardem. Foram esses os meus primeiros passos.

DdM: Você já filmou com produtoras nacionais e internacionais. Qual a maior diferença?

Yuri Oberon: Veja bem, a fórmula de criação de uma produtora não muda tanto. Como os filmes são pensados, criados, produzidos, alocados e idealizados acabam por seguir um mesmo norte de produção de conteúdo. Mas é necessário que eu deixe um adendo sobre isso, eu apenas trabalhei com essas produtoras que eu falei antes e isso não me dá margem suficiente para comparar com os demais nomes no mercado.
Os pontos que eu observo nas conversas entres os profissionais na área, e de que o cuidado com o colaborador é o que mais acaba sendo a diferença. Esse cuidado seria, a imagem do ator, como lidam com ele nos bastidores e nos contatos, organização, benefícios, etc. Pense bem, nosso trabalho não tem uma regulamentação que nos proteja, então, acabamos desamparados em questões básicas de vínculo empregatício.
Também quero resaltar que apesar de difícil trabalhar nesse mercado, as duas produtoras com as quais trabalhei, sempre se mostraram profissionais e atenciosas em gerir um trabalho bom, compartilhando suas visões de futuro, onde queriam chegar.

DdM: Nas redes sociais você já criticou enredos racistas em filmes eróticos. Já recusou a participação em algum filme por conta do roteiro?

Yuri Oberon: Já. Não valeria a pena eu citar aqui qual foi a produção, mas já neguei sim. O pornô nacional tem como base o preconceito institucionalizado na nossa cultura e por algum motivo psicológico ou sei lá, não sou o profissional para determinar a razão, isso mexe diretamente com nossa libido. Eu mesmo sinto tesão em algumas coisas que, no convívio social, são símbolos de tudo aquilo que representa o que eu luto contra.
Tipo, por exemplo, filme europeu de pig skinhead. Quando eu analiso isso, vejo que uma maneira importante para que essa cultura vá deixando de existir é parar de alimentar essa imaginação íntima nossa. Filmes de estupro já são proibidos hoje. Está na hora de começar a pensar o mal que faz filmes que o negro é apenas um pau, é o empregado gostoso, é a mulher gostosa do baile e todos esses estereótipos pintados na nossa cara.
Dá tesão ver o mavambo sem cueca? Faz a cena em que esse mavambo tá na faculdade e não vendendo bala no sinal. Não é difícil pensar fora da casinha. Se não consegue, contratem equipes de pessoas negras para produzirem nos bastidores. Contratem mulheres. Elas assistem pornô também. Contratem pessoas Trans para mostrarem suas visões sobre aquele roteiro. Acredito que dá para produzir algo quente, que venda e que ajude mais do que atrapalhe a sociedade. Afinal, geral consome pornô.

DdM: Qual sua visão sobre a hipersexulização do corpo negro e o mercado pornô?

Oberon: Eu sempre toco nesse assunto, é algo que sempre será necessário ser dito. Pessoas negras são objetos sempre. O branco não entende isso. Porque se tornou comum para ele que na hora de casar, vai apresentar o namorado branco e bem sucedido e na hora de gozar, vai atrás do negro, que geralmente é alguém que presta algum serviço pra ele. Vai ser o Uber, o pedreiro, o menino do sinal, o funcionário… Olha a relação de poder se repetindo. Te lembra a casa grande lá nos tempos da escravidão? A mim lembra demais. Essa é a imagem que a gente repete, quando cria o roteiro para as cenas que mais vendem no pornô.

DdM: Ainda sobre a hipersexualização do negro, já foi criticado por fazer filmes como passivo?

Oberon: Engraçado, quando a minha primeira cena como passivo saiu, eu recebi muito elogio e não esperava isso. Fiquei megasurpreso. Mas, é óbvio que tem sempre alguém que vai falar algo contra com comentários machistas do tipo: “a lá, o atuação já foi dar a bunda”. O louco nisso, é que minha percepção sobre esse comentário se lê como a inveja enrustida sabe? Como se aquele ser, que tá ali criticando, estivesse em péssimas situações sexuais na vida. Que aquele comentário é apenas a expressão do desejo dele de dar o cu, como eu. Daí apenas dou risada por dentro.
Sempre disse que era versátil e para mim é o maior prazer aproveitar todos os lados da transa.

DdM: Além da participação em filmes, atualmente muitos atores têm investido em conteúdo próprio para plataformas como OnlyFans. Você acredita que essas plataformas fazem frente às grandes produtoras ou os trabalhos se complementam?

Oberon: Minha principal renda de trabalho vem dessas plataformas de produção de conteúdo. Eu utilizo hoje o OnlyFans e o Just 4 Fans, lá o fã consome conteúdos exclusivos para eles, com longa duração, postados semanalmente, pelo preço de $12 dólares mensais. Eu entrei nelas no início do crescimento desse mercado aqui no Brasil. Lá nesse início, eu o utilizava como apoio. Mas as coisas no mundo foram mudando, as crises vieram, e o mundo ficou doente.
Atualmente estamos em um mundo novo e com novas propostas de mercado. O que me fez investir ainda mais meu tempo e criação para fazer essas plataformas funcionarem bem. Em 2019, no fim do meu curso de publicidade, meu projeto pessoal de planejamento estratégico e de empresa já era o meu nome, Yuri Oberon.
Fiz isso por ver que as redes sociais estavam abrindo um mercado novo nesse mundo digital. O poder dos influenciadores digitais nas redes virou a principal ferramenta do marketing e da propaganda e essas plataformas trouxeram essa ferramenta para a indústria do pornô. As vezes acho até engraçado eu estar no posto certo e na hora dessa reviravolta mercadológica. Hoje eu vejo que a produção de conteúdo está em alta e sem medo de cair. Se esse será o fim das produtoras, eu não sei. E acredito que não, pois tem espaço para vários tipos de criações em modelos e roteiro. Além de que a adaptação aos meios digitais farão as produtoras crescerem em sentidos diferentes.

DdM: Você se formou recentemente em Publicidade, certo? Pretende investir mais nessa carreira?

Oberon: Acho que esse investimento já tem sido feito desde antes de concluir o curso. O meu nome nessa área se tornou meu emprego e minha empresa. Não tenho o pensamento de que trabalhar no entretenimento adulto seja apenas uma fase, é um projeto que pretendo fazer crescer. Afinal, todos sonhamos em ser nosso próprio patrão.
Isso tudo é extremamente cansativo, exige muito da minha mente e do meu tempo. É um serviço sem muita folga e não dá para pendurar o Yuri no armário por 3 dias e viver a vida pessoal, sem consequências no resultado. Sabemos que os meios digitais precisam ser alimentados diariamente com conteúdos relevantes para manter a audiência e a qualidade daquilo que apresento aos meus fãs. Se isso cair é perda.
Pretendo evoluir dentro desse mercado, no momento que cansar de estar na frente das câmeras eu vou só seguir adiante. Eu ainda vejo muita coisa para ser feita na indústria adulta. Principalmente na abordagem cultural.

DdM: Com quem gostaria de gravar e ainda não teve oportunidade?

Oberon: Nossa, mas eu sou fã de uma paaaah de galera. Sou fã desde a adolescência do Brent Corrigan e do Brent Everett, então, é aquele sonho adolescente ainda vivo. Temos os nossos, Andy Star, Du Picasso, Rafael Alencar… Sou fã da galera da Treasure Island e morro de tesão naqueles filmes do Tim Kruger. Quem não quer, né?
Mas o que eu mais quero é fazer uma tour nacional e conhecer as delícias que nosso país esconde. Sair do eixo sudeste. Eu sou curioso com nosso país. Conheço pouco e amo saber histórias de vida e de culturas diferentes. Uma coisa maravilhosa no meu trabalho é o prazer que eu tenho de fazer uma troca de experiências com outro ser. Esse seres tão cheios de enigmas, sonhos, vontades, e sexo diferentes do meus. Isso não é maravilhoso?

DdM: Você citou o nome de alguns atores brasileiros que foram trabalhar fora do Brasil. Você também cogita essa possibilidade?

Oberon: Todo o tempo, mas apenas por razões econômicas. Infelizmente as oportunidades no Brasil ainda são problemáticas. Também tem a questão da segurança. Já estive na Alemanha por duas vezes e nesses momentos eu pude ver a realidade de outros mundos e como é possível ter uma vida boa. Mas esse tipo de mudança é complexa, exige planejamento e eu, como disse antes, tenho ainda o profundo desejo de conhecer cada detalhe desse nosso país continental. Então, tá nas mãos do universo por enquanto.

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Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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