Temos que tirar a letra T das margens

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Desde que me entendi como um homem gay até os dias de hoje muita coisa mudou para melhor, mas ainda temos que tirar a letra T das margens.

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Enquanto conseguimos enumerar diretos explícitos e implícitos para homens gays, são poucas as vitórias e a representatividade de transexuais no Brasil.

Apenas para provar o meu ponto, lembro da barra pesada que era ser gay no ensino médio, mesmo que eu não tivesse certeza do que eu era ainda.

Garotos, mesmo os que hoje são heterossexuais, forçando uma masculinidade desnecessária parece ter ficado nos anos 2000, já que recentemente passei na frente da escola em que me formei e vi dois meninos saindo de mãos dadas e trocando carinhos sem que ninguém se parecesse se importar.

É uma pequena vitória, certo? Mas ainda é uma conquista maior do que a de pessoas trans que, nesse mesmo colégio, ainda não podem usar o banheiro do gênero que se identificam.

É bem verdade que temos personagens e atores transexuais na Globo, que permanece sendo um dos canais mais relevantes do país, mas é possível contar nos dedos de uma mão. E nem vou entrar no mérito das histórias rasas e nada representativas.

Em 2008, a comunidade brasileira percebeu que não estávamos dando tanta vazão assim para lésbicas e, em uma atitude louvável, tirou os gays de foco na sigla. Deixamos de ser GLBT para nos tornarmos LGBT.

Não sou uma mulher lésbica. Não sei dizer se essa mudança foi transformadora para elas, mas é importante saber que foram lembradas. O T, por outro lado, continua as margens, mesmo na nossa sigla.

A discussão aqui não é uma nova mudança na ordem das letras, mas perceber como, mesmo quando falamos da gente, pessoas trans, por muito tempo, vieram em último lugar.

As coisas caminham a passos lentos demais para essa população. Estamos em 2019 e só agora, por exemplo, uma produtora gay incluiu um homem trans na produções.

Embora Gloria Groove e Pabllo Vittar estejam em constante ascenção, Urias, Linn da Quebrada, Danna Lisboa, Danny Bond e tantas outras T gatas precisam suar a camisa para conseguir menos de 1% da visibilidade dentro da própria comunidade.

Quando falo em tirar o T das margens, falo em ouvir mais e lutar mais pelas demandas dessa população que por muitas vezes é quem está na linha de frente nas nossas brigas.

Não é dar voz, porque as gatas já tem voz, mas fazer com que elas sejam ouvidas. É apoiar e ajudar as pessoas a saberem da existência da Casa Florescer, por exemplo.

É aplaudir de pé a parceria entre Burger King e Transempregos porque essas iniciativas provam que pessoas trans tem competência suficiente para estar além das calçadas.

É explicar porquê é errado dar um papel de personagem transexual para um ator cisgênero quando existem tantos atores e atrizes trans esperando uma oportunidade. É ir além e mostrar que esses artistas estão prontos inclusive para viver personagens heterossexuais.

E, falando em Brasil, é lutar por políticas públicas e cobrar para que a expectativa de vida de pessoas trans deixe de ser 35 anos.

Essas mudanças precisam partir de nós, a comunidade. Nós precisamos apoias mais e ter atitudes que tirem a letra T das margens.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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