O cancelamento é particular e não deve ser forçado

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Se você chegou ao último dia de 2019 sem cancelar, ser cancelado ou ter ideia do que é a “cultura do cancelamento”, você provavelmente esteve trancado em uma caverna sem nenhum contato com outras pessoas.

Abraçado por boa parte da comunidade LGBT, mas também presente entre os héteros mais conversadores, o cancelamento, no meu entender, é uma evolução do que conhecíamos como boicote.

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Grosso modo, caso ainda não tenha ficado claro, se algum artista ou empresa faz algo que vai de encontro ao que seus valores defendem, você pode parar de consumir aquela marca como sinal de protesto e sugerir que o grupo que você está inserido faça o mesmo.

A maioria dos exemplos que vem a minha cabeça nesse momento são de religiosos, mas talvez fique mais fácil de entender com eles. O Boticário foi boicotado em 2015 por causa de uma campanha que incluía um casal LGBTI.

Já em 2016, conservadores decidiram boicotar a Rede Globo depois de um beijo entre as atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg no início da novela Babilônia. É difícil saber se foi por isso, mas a novela fracassou em audiência.

Para que um boicote fosse bem sucedido, era preciso que um grupo, seja de religiosos, conversadores ou minorias como mulheres negros e LGBT, se organizasse. Essa era a premissa, mas ela ainda faz sentido na era do cancelamento?

A diferença entre boicote e cancelamento

Com o passar dos anos, o boicote evoluiu e ganhou contornos mais rígidos. Se antes poderia ser algo temporário de acordo com a mudança de posicionamento, agora, parece não existir a possibilidade de redenção ou uma segunda chance.

Veja, a partir daqui, muita gente vai me acusar de passar pano, que é uma expressão que surgiu para fortalecer a cultura do cancelamento, mas enquanto o boicote propunha uma discussão, o cancelamento tem caráter definitivo.

Um dos exemplos mais polêmicos e que geram mais discussões sobre isso, é caso da cantora Anitta. Durante as eleições, a falta de posicionamento da cantora, que até então tinha muitas opiniões sobre diversos assuntos e apoiava minorias, irritou bastante.

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Ela chegou a dizer que eram as atitudes e não os discursos dela quem deveriam importar, o que eu concordo, mas isso é uma outra discussão. Com a pressão, Anitta acabou quebrando o silêncio, mas era tarde demais. A imagem de oportunista já tinha colado e muita gente, eu me incluo, pararam de consumir o trabalho dela.

Depois da cantora, vários artistas e marcas passaram a fazer parte de uma lista de nomes que devemos evitar dar nosso Pink Money, custe o que custar. Com isso, para muitos, as razões para um cancelamento deixou de ser o bem estar de um grupo para virar um grande vale tudo com direito a motivos pessoais.

A ideia de apenas não consumir o trabalho de um artista ou marca para que ele caia no esquecimento e aprenda com o posicionamento errado deu lugar para casos em que notícias falsas e sem apuração, ataques pessoais e a familiares ou até ameaças viraram protagonista de algo que talvez não faça sentido para outras pessoas.

Não gostar da música de Gloria Groove ou da maneira que ela escolheu lidar com a invasão de um fã no palco virou motivo suficiente para que propusesse o cancelamento da cantora, por exemplo.

Como disse antes, o boicote surge quando algo ou alguém faz algo que vai de encontro aos seus valores. Então, tudo bem que alguém não queira consumir o trabalho de Gloria por razões particulares, mas a pergunta é: no que esse cancelamento contribui para a comunidade LGBT?

Qual problema ela traz para gente ao decidir que não quer que ninguém suba no palco durante uma apresentação? Porque esse boicote, ou cancelamento, se assim você preferir, deveria ser imposto para outras pessoas?

O cancelamento deve ser cancelado?

O problema não está no cancelamento em si, já que tivemos algumas vitórias por causa dele. Poderia citar, por exemplo, o Nego do Borel que depois da mobilização em torno de um comentário transfóbico teve a gravação do DVD adiada e teve que se desculpar pessoalmente com Luisa Marilac. Ela o perdoou.

Há também a Riachuelo que mudou drasticamente o posicionamento, chegando a criar vagas exclusivas para pessoas trans. Tudo pela pressão e comoção causada pelo do cancelamento. Mas a maneira e as razões pessoais que estão o causando precisam ser repensadas.

Tudo bem que você use sua régua moral para decidir boicotar Ivete Sangalo, Anitta ou até Pabllo Vittar, desde que você não imponha isso para outras pessoas. A única base para cancelar algum artista ou empresa é a sua consciência. Deveríamos nos lembrar disso em 2020.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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