Por que falar sobre saúde LGBT+?

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Hoje inicio aqui uma caminhada na tentativa de desbravar a mente, os tabus e os preconceitos para com a discussão de saúde na vertente das pessoas LGBT+. Me chamo Felipe Medeiros, sou homem cis, homossexual, médico, especializando em infectologia na cidade de São Paulo, e desde a faculdade tento entender um pouco melhor as características que nos distinguem enquanto grupo populacional, com características e necessidades únicas, e o que nos cabe na discussão de saúde.

O assunto é longo. Vivemos hoje numa era de novas descobertas diárias, com avanços muito rápidos e que trazem novas informações e conceitos num piscar de olhos. Sexualidade, identidade de gênero, infecções sexualmente transmissíveis, hormonioterapia, adequação dos corpos, saúde mental, convívio social – tudo mirando para um lugar comum: o direito de existir enquanto pessoa. Desde muito tempo temos sofrido com LGBTfobia de diversas formas, seja física ou psicológica, seja direta ou indiretamente.

Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), vivemos em um país onde a cada 20 horas se mata uma pessoa de forma violenta por ser LGBT. Tivemos de janeiro a maio de 2019, 141 pessoas assassinadas simplesmente por sua identidade de gênero ou manifestação da sexualidade. Vivemos no país que mais mata Travestis e Transexuais do mundo.

E cada vez mais vemos ataques diretos aos nossos direitos, à nossa existência, seja pelo governo atual cada vez mais truculento e opressor de minorias ou no dia a dia, dentro do transporte público, no trabalho, em casa ou mesmo aqui, na internet, onde pessoas se escondem atrás de telas de computadores e colocam para fora todo o ódio que se possa imaginar, não pensando em como a pessoa do outro lado tomará aquilo para si, sem pensar nas consequências – algumas vezes fatais.

Um levantamento rápido dos motivos pelos quais devemos falar sobre saúde LGBT, trago dados sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST, coloco aqui dados do último boletim sobre HIV/AIDS – lançado em dezembro de 2019 pelo Ministério da Saúde, trazendo dados do ano anterior -, tivemos quase 44.000 casos novos de HIV no Brasil em 2018, sendo desses 72% homens, que em sua maioria são HSH (homens que fazem sexo com homens, entre eles gays e bissexuais), pretos e pardos entre 15 a 29 anos.

Pudemos observar também uma queda nos casos de AIDS (doença causada pelo vírus do HIV) em relação aos anos anteriores, porém muito aquém do que esperamos e do que gostaríamos, ainda sendo mais vista em homens, HSH, negros e pardos, escancarando também o racismo no acesso à saúde.

Indo para outras ISTs, vemos um aumento de 28% de sífilis em relação ao ano anterior, sendo mais prevalente dos 20 aos 39 anos, além também de um aumento de infecções por hepatite A, desde 2017, relacionadas à práticas sexuais orais-anais (ou como preferirem: beijo-grego, cunete e derivados).

Falar de saúde LGBT é também falar sobre acesso à informação, correta e de qualidade. Trago aqui outros locais para buscar informações sobre saúde LGBT, seja de forma simples e direita; de forma cômica, porém real; e até mesmo de forma mais completa: Nos sites Carta Capital com sua coluna sobre saúde LGBT+ e Blogosfera UOL com o Blog do Rico Vasconcelos, nos perfis de Instagram Doutor Maravilha, Dr. Vinicius Lacerda, Ginecologista Sincera, Lucas Raniel, Carué Contreiras e Canais de YouTube que trazem vídeos sobre diversos temas da saúde LGBT, como Canal das Bee, Lorelay Fox, Chá dos 5 e tantos outros. Somente com o conhecimento compartilhado é que vamos evoluir no diálogo e na luta.

Tentaremos fazer desse espaço também um ambiente de conversa, um ambiente acolhedor, tentando trazer os assuntos que mais os leitores desejam, tirando as dúvidas necessárias para que todos nós possamos seguir com a informação correta e lutando juntos. Mandem dúvidas, perguntas e críticas, façamos daqui um espaço de construção conjunta. E sigamos na luta por uma saúde pública, de qualidade, embasada no Sistema Único de Saúde, que atenda também às nossas demandas como LGBT.

Comentários

Felipe Medeiros
Felipe é médico, gay, faz residência de infectologia, vive com seus dois gatos e também é pai de 4 cachorros bem fofos. Se envolveu com saúde LGBT desde a faculdade e desde então se tornou uma poc militante das bem fervorosas.
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