O que um exame de próstata pode ensinar sobre masculinidade frágil?

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No início do mês vimos em diversos veículos de conteúdo LGBTQIA+ a notícia sobre um homem que durante o exame prostático (realizado por médico para identificação de possíveis problemas na próstata), ejaculou devido ao estímulo causado pelo dedo do médico e após isso atirou nele. Embora a situação tenha sido desmentida, podemos elencar diversos problemas em relação à situação.

A próstata é uma glândula que fica na região interna da pelve em homens cisgênero e algumas mulheres transgênero. Ela pode ser acessada de forma indireta através do toque retal e tem a principal função de excretar um composto do que será o sêmen, o gozo. Mas para além disso, a próstata é um local onde há bastante inervação e chegada de circulação, tornando essa área o dito ponto G dos que a possuem.

Com o toque e o estímulo na próstata, a pessoa pode ter prazer e até mesmo chegar ao orgasmo por conta da inervação nela, o que pode ser de forma sexual ou não. No exame do toque retal, realizado para avaliar a região do canal anal  e reto (em busca de lesões neoplásicas, avaliação de hemorroidas ou outras doenças anorretais) ou mesmo para avaliar problemas da própria próstata (câncer, inflamação ou infecção), o paciente pode vir a ejacular mesmo sem a vontade ou sem o desejo sexual, apenas pelo estímulo manual do local.

Mas colocando explicações médicas e técnicas de lado, por que não utilizar então essa zona erógena para o maior prazer dentro de relações sexuais? Porque para acessá-la devemos passar por uma das partes dos nossos corpos que mais carrega tabus e estigmas socioculturais: o cu.

O cu carrega uma grande carga de preconceitos para com seu uso durante as relações sexuais, principalmente porque é colocado como prática sexual inferior, tanto por ser mais ligada a nós LGBTs quanto também por ser uma prática insertiva, onde culturalmente quem penetra tem o controle de quem está sendo penetrado.

Geralmente, a heteronormatividade implica em negar ser penetrado por prazer, pois o homem viril tem que manter sua integridade sem que nada penetre na sua estrutura, nem que isso seja algo que lhe traga prazer.

E não é porque nossa sociedade patriarcal e normativa não gosta do prazer, muito pelo contrário (visto obras do Marquês de Sade desde século XVIII), ela gosta do prazer as escuras, o prazer proibido socialmente, o prazer que carrega os perigos de uma não informação e de uma subjugação daquilo que poderia ser prontamente tratado como comum, mas que feriria a imagem do grande homem viril que mantém o status quo.

A masculinidade é frágil porque ela não se sustenta por si só. Ela precisa que o sistema interponha práticas inferiores, passivas, para que pensemos que ser ativo, ou só comer cu e buceta, são práticas de verdadeiros homens, sejam eles heteros ou gays.

Indo para a esfera dos LGBTQIA+, vemos recorrentemente ativos se sentindo superiores aos passivos ou achando que o fato de inserir seus falos em outres os torna menos gays ou mais passáveis perante à sociedade que os demais. Porém, quem disse que são? Quem determina isso se não nós mesmos reafirmando tais padrões da sociedade machista e LGBTfóbica?

E esse texto não vale apenas para homens cis ou mulheres trans LGBTQIA+, vale também para os homens cis heterossexuais. Por que não experimentar o prazer de forma total, sem o tabu de sentir menor por estar conhecendo seu corpo e seus desejos ao máximo, ser feliz na sua totalidade?

O prazer proporcionado pela estimulação prostática pode ser sentindo por todos que a tem e que se sintam confortáveis no ato do estímulo. Se conhecer é o ponto chave para todo o prazer, e tem-se que se entender que o uso do cu e da próstata vai além da caracterização da sexualidade, vai de acordo com o que lhe da prazer, o que te faz gozar feliz.

Com isso, venho aqui dizer que o estímulo prostático causa sim ejaculação, mesmo que não de vertente sexual e que isso não te faz mais ou menos heterossexual ou homem. Negar isso e abordar como tabu só mostra o quanto a masculinidade tóxica e frágil os torna inferiores, os torna limitados a explorar toda a gama de prazer embutido nos nossos próprios corpos e nos privar de algo que pode ser muito melhor pra nós mesmos.

Que possamos explorar nossos corpos sem o medo do que a sociedade determina como masculino ou feminino, certo ou errado; a próstata pode fazer parte do sexo, trazendo um prazer incrível nisso. Usem e abusem!

Comentários

Felipe Medeiros
Felipe é médico, gay, faz residência de infectologia, vive com seus dois gatos e também é pai de 4 cachorros bem fofos. Se envolveu com saúde LGBT desde a faculdade e desde então se tornou uma poc militante das bem fervorosas.
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