A saúde precisa focar nas pessoas trans e travestis

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Janeiro é o mês da visibilidade trans e travesti, e como aqui falamos de saúde, convido vocês a pensarem: será que as pessoas trans e travestis acessam (ou tem acesso) o sistema de saúde, seja ele público ou particular, da mesma forma que eu? A resposta é não, infelizmente. No último boletim da ANTRA temos que de janeiro a outubro de 2020, houve 151 assassinatos de pessoas trans e travesti no país, já extrapolando mais de 20% em relação ao ano anterior.

Vivemos no país que mais comete crimes contra pessoas trans e transexuais do mundo, motivados por transfobia, corriqueira no nosso dia a dia. E na saúde não é diferente: vemos pessoas trans não chegarem ao serviço de saúde por medo de serem discriminadas; os que chegam, sofrem transfobia nos atendimentos; e as demandas das pessoas trans não são entendidas com equidade por muitos profissionais, ainda.

Vocês já pararam para pensar que pessoas com útero necessitam de acompanhamento com papanicolau a partir dos 25 anos de idade e que isso inclui alguns homens trans? Você já parou para pensar que mulheres também podem ter câncer de próstata e de pênis e necessitam ter o acompanhamento dessas patologias por seus médicos?

Saúde e contracepção de pessoas trans | E aí, rolou?

Infelizmente, esse pensamento também não é frequente dentro das práticas clínicas dos profissionais de saúde. Muitos dos cursos da área da saúde ainda não tem dentro de sua estrutura curricular a pauta de saúde LGBTQIA+, incluindo as pessoas trans e travestis dentro do aprendizado, mostrando pautas específicas dessa parcela da população, o que mostra bem quais os tipos de profissionais que a Academia deseja formar: pessoas excludentes que excluem vidas marginalizadas.

Digo marginalizadas pois pessoas trans e travestis ainda convivem, em sua maioria, com a pobreza. O trabalho ainda é regalia e, quando é presente, se dá numa profissão ainda excluída e vista como inferior – a prostituição. Ainda segundo dados da ANTRA, aproximadamente 90% das pessoas trans e travestis ainda necessitam recorrer à prostituição para garantirem a sobrevivência, e junto disso o preconceito dobrado recobre todas às possíveis ações de saúde que poderiam ser levantadas nesse cenário.

Uma vulnerabilidade maior para aquisição de ISTs, para desenvolver um câncer prevenível/rastreável, de efeitos colaterais pelo uso de hormonioterapia por não acompanhamento, de sequelas causadas por aplicação de produtos para moldarem os corpos para terem mais passabilidade ou mesmo para se sentirem mais bonitas, quistas; uma maior propensão à distúrbios mentais como depressão, ansiedade e outras manifestações relacionadas ao preconceito diário sofrido.

Pessoas trans e travestis merecem respeito e merecem que suas pautas específicas sejam levadas em consideração a todo o momento, desde o momento do entendimento do gênero até o final da vida. A saúde precisa se moldar para que essa população chegue e seja atendida da melhor forma possível, sendo respeitada e ouvida em todo o processo.Mas nem tudo são mágoas quando falamos de saúde de pessoas trans e travestis.

O sistema de saúde vem sendo mudado diariamente e os direitos dessas pessoas vem sendo colocado, mesmo que de forma lenta e atrasada, nas pautas da saúde. Vacinas específicas, respeito ao nome social garantido no SUS, processos de hormonioterapia e cirurgias de redesignação sexual sendo mais expandidas no país, PrEP disponível pelo SUS, profissionais de saúde se educando e se especializando na pauta das pessoas trans e travesti, e também disseminando esse conhecimento no seu dia-a-dia dentro dos postos de trabalho.

Mas a gente quer mais. E não é mais do além dos demais, é mais para que cheguemos no mínimo de atendimento decente à elas e eles. Precisamos reconhecer a existência deles e delas e trazer eles para o foco de debate, dar voz às pessoas trans e travestis dentro das pautas de saúde para que consigamos entender propriamente suas demandas e anseios. A nossa luta é diária, para que o SUS acolha a letra T como merecido: com dignidade e respeito!

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Felipe é médico, gay, faz residência de infectologia, vive com seus dois gatos e também é pai de 4 cachorros bem fofos. Se envolveu com saúde LGBT desde a faculdade e desde então se tornou uma poc militante das bem fervorosas.
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