Opinões sobre TransFake não são unanimidade entre artistas trans

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O mundo do entretenimento parece estar tentando se tornar mais inclusivo com o passar dos anos, mesmo que tenha tido uma pequena queda na representação de pessoas LGBT em 2020. A tentativa, no entanto, constantemente esbarra num tópico tido como um delicado tabu: o TransFake – quando personagens trans vividos por pessoas cis.

A discussão não é unanime nem mesmo entre a comunidade T. Embora muitos comparem o ato ao Black Face (quando brancos se pintam de negros) e classifiquem como desrespeito ter alguém cisgênero assumindo um papel trans, há quem aponte que é justamente essa a função do ator, interpretar algo completamente fora de sua vivência, além de dizer que qualquer posicionamento que coloque essa visão em cheque seria censura.

Dois atores da comunidade LGBT que se viram no centro desta confusão foram Luis Lobianco e Carol Duarte, ambos cisgênero. Enquanto Lobianco foi duramente criticado e alvo de protestos por conta do espetáculo Gisberta, a escalação de Carol para viver um homem trans chegou a ser criticada pela atriz Jamie Clayton, conhecida por viver Nomi em Sense8.

O Dentro Do Meio procurou pelo dois artistas para falar dos episódios e da opinião deles sobre transfake. Luis declinou o convite e Duarte não respondeu nosso contato, mas além de ter Ivan conquistando diversos elogios dentro e fora da comunidade LGBT, recebeu o apoio do ator Tarso Brant, com quem contracenou em A Força do Querer.

“Carol, como qualquer outro ator, está disposta a se viver uma realidade que não seja a sua, ao meu ver o trabalho dela foi de uma sensibilidade incrível, claro que um trans teria esse ponto de vista mas acredito que trabalhos não vão faltar!”, comentou Brant ao ser questionado sobre a atuação dela e a discussão sobre transfake.

No entanto, não é sempre que profissionais da atuação ignoram as críticas e protestos. Apenas para citar alguns nomes, Scarlett Johansson e Halle Berry são duas das atrizes que desistiram de interpretar pessoas trans depois que foram confrontadas. Hilary Swank, que ganhou um Oscar por viver um homem trans em 1999, recentemente reconheceu que seria muito mais adequado que um transgênero tivesse sido escalado.

“O transfake existe desde a primeira obra sobre a transgeneridade. É sempre uma pessoa cisgênero interpretando uma pessoa trans e não abrem espaço para artistas trans estarem presentes ou contar verdadeiramente de forma positiva quem nós somos e qual é a nossa história. Há obras que além de utilizar o transfake, dizem coisas absurdas sobre o que é ser trans. Tem uma do audiovisual que não quero citar o nome que diz que ser travesti é ser homem de dia e mulher de noite e isso é um absurdo”, argumenta Anne Mota, protagonista do longa Alice Júnior.

Embora não haja um consenso sobre transfake, a falta de oportunidade para artistas trans não parece ser motivo de discordância. “Pessoas trans existem e sempre existiram em todo mundo. É muito estranho, por exemplo, quando uma novela, filme ou peça de teatro sobre assuntos cotidianos não tem a presença de pessoas trans”, argumenta Anne. “Não necessariamente o fato de ser trans precisa ser abordado sempre como algo fora do comum e foco da história porque é só mais uma característica nossa”.

“Eu acredito que ambos [artistas trans e cis] tem a capacidade de compreender e desenvolver seu trabalho seja ele qual for, apenas precisamos trabalhar com senso de igualdade na hora de abrir vagas para testes”, pontua Tarso sobre o pensamento de que se apenas pessoas trans podem viver personagens trans o mesmo deveria valer para pessoas e personagens cisgênero.

Vale lembrar que, no Brasil, tivemos durante 2020 o anúncio de que Liniker protagonizará uma série na Amazon Prime, que a atriz Gabriela Lohan estará na segunda temporada da série Arcanjo na Globo Play, além da participação de Joana Couto na série Perdido do Canal Brasil.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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