“Ser negro no Brasil é ter coragem e medo”, aponta especialista

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Foto: Paulo Pinto/FotosPúblicas

Os debates em novembro sobre a Consciência Negra não foram suficientes para ilustrar o nível de violência direcionado a esta população. E quando se é negro e LGBTI, a exposição a agressões é ainda maior. Dados de uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz apontaram que do total de violências sofridas por LGBTIs entre 2015 e 2017, metade das vítimas foram negras. Esta realidade é parecida com uma análise realizada neste ano pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais: a população trans negra é a maioria nas estatísticas de assassinatos.

No último mês, o Instituto sobre Raça, Igualdade e Direitos Humanos (Race and Equality) lançou um dossiê com objetivo de escancarar a situação de vulnerabilidade da população negra LGBTI. “Nós entendemos que é necessário trazer a agenda racial para o centro das discussões LGBTI, da mesma forma que é necessário levar a agenda LGBTI para o centro das discussões raciais. Não é possível dizer que existem pautas que devem ser discutidas exclusivamente por um movimento ou por outro, porque as pessoas LGBTI têm raça e as pessoas negras têm orientação sexual e identidade de gênero, o que significa que existem pessoas que se encontram na interseção das duas agendas”, explica Isaac Porto, consultor LGBTI do instituto e mestre em Direito.

Um exemplo da necessidade de integração da agenda do movimento negro com o movimento LGBTI é a extrema violência policial sofrida por travestis e mulheres transexuais. No geral, a violência policial é um tema combatido pelo movimento negro e não pelo movimento LGBTI, ao mesmo tempo em que este mesmo movimento negro não destaca a violência direcionada à população trans. A integração é necessária para o alinhamento e o combate amplo das desigualdades.

Outro ponto importante, que a equipe de reportagem do Dentro do Meio denunciou em setembro, foi a ausência de dados governamentais sobre a população LGBTI do Brasil. “São as organizações da sociedade civil as que de fato produzem dados no Brasil, como a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e o GGB (Grupo Gay da Bahia). Sem produção de dados, não é possível conhecer a realidade vivida pelas pessoas, identificar os problemas existentes e traçar soluções possíveis. Esse cenário demonstra um forte descompromisso político para com essas vidas”, afirma Issac. “É preciso ir além da elaboração de grandes frases que terminem com ‘e a situação é pior se a pessoa for negra’. Precisamos saber o que é pior. Quais são os problemas vividos. O que as pessoas LGBTI negras passam no sistema de saúde, por exemplo? O que acontece quando mulheres negras e lésbicas sofrem lesbofobia numa consulta ginecológica? Quais são as violações de direitos que ocorrem dentro do ambiente de trabalho? O que o Estado tem feito para conhecer essas realidades?”.

Para o especialista, embora os direitos humanos no Brasil estejam sob intensa ameaça, o movimento negro tem se mostrado cada vez mais forte. Em suas palavras, ser negro no país é viver em dualidade. “É ter coragem e medo. É ter alegria e muita dor. É ter esperança e desengano. É acordar numa manhã e acreditar que o dia será de celebração e receber a notícia de que mais um homem negro foi assassinado dentro de um mercado. É precisar lutar por direitos e, ao mesmo tempo, não conseguir enxergar que o Estado foi projetado para proteger as nossas vidas. Mas também é muita resistência. É olhar para os que lutaram antes e querer continuar a luta agora. É sempre lutar por vida e liberdade”, conclui.

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