RetrosPOCtiva 2020: acontecimentos do ano mais complicado de nossas vidas

41
views
Foto: Henry Romero/Reuters

Embora, no geral, as pessoas adotem um tom otimista e quase saudosista enquanto listam os acontecimentos no final do de ano, precisamos ser sinceros: 2020 não vai deixar saudades. Marcado por uma pandemia global que foi intensificada pelas eleições de 2018, são poucas as coisas boas que podemos exaltar.

Ainda assim, pela primeira vez desde que foi criado, o Dentro Do Meio decidiu reunir em uma única matéria tudo que o rolou durante o ano com a nossa RetrosPOCtiva – eu sei, não é o mais original dos nomes, mas é o que temos.

Para construção desse texto analisamos as notícias mais acessadas por vocês em 2020 e selecionamos algumas matérias que ajudarão a contar, nos anos futuros, quais foram os avanços e no que devemos focar esforços daqui para frente.

O começo de 2020 e o Brasil pré-covid

Logo nos primeiros dias do ano e para surpresa de absolutamente ninguém descobrimos que a polícia brasileira não está preparada para lidar com pessoas LGBT e denúncias sobre casos de discriminação, já que pouco depois da virada do ano militares se recusaram ajudar num caso de agressão.

Em Maceió, uma mulher trans teve seu direito de ir ao banheiro feminino tolido e acabou sendo expulsa de um shopping. Com a repercussão, vários LGBTs foram ao estabelecimento protestar. Aqui você confere um discurso feito pela vítima de discriminação.

Por falar em pessoas trans, a Antra acabou sendo alvo de ataques depois que um site gay utilizou de forma incorreta os dados para fazer uma matérias que chegou a ser compartilhada por um dos filhos de Bolsonaro. Quando confrontado com os dados corretos, o site disse que instituição era mentirosa.

Já no Rio de Janeiro o governador aprovou uma lei que puniria a LGBTfobia, mas voltou atrás rapidamente depois da pressão de autoridades religiosas que diziam que a norma serviria para proibir pregações – o que não é permitido de acordo com a constituição.

Enquanto isso, homens gays começaram a se masturbar com cascas de banana, um lutador que vivia dizendo absurdos homofóbicos teve o passado na indústria do pornô gay exposto na internet e um ator pornô denunciou uma produtora que pagava bem menos para atores passivos.

Tudo isso antes da chegada do coronavírus no Brasil, que embora já fizesse vítimas no mundo inteiro, ainda permitiu que a gente curtisse o carnaval usando harness e aglomerasse sem medo de sermos felizes. Conforme a pandemia ganhava força, religiosos encontravam maneiras de culpar a comunidade LGBT pela doença e a ciência apontava que o vírus podia ser transmitido por cunete.

No mundo do entretenimento, a Netflix cancelava a série original estrelada por RuPaul pouco depois da estreia e surgiam os primeiros rumores sobre um homem-aranha bissexual num filme com mais de uma versão do herói.

Fechando o primeiro trimestre a COVID-19 começou a avançar no país, fechar estabelecimentos e dar sinais do que seriam nossas vidas no restante do nosso 2020.

Do avanço da pandemia, passando pelo #BlackLivesMatter até mês do Orgulho

A falta de um planejamento do governo somada a força da pandemia bateu forte nas populações mais vulneráveis, mas também deu espaço para que uma onda de solidariedade inundasse o Brasil. Léo Kret, mulher trans e ex-vereadora de Salvador, foi uma das pessoas que deu o exemplo e sem se autopromover reuniu e distribuiu cestas básicas.

A sauna paulista Wild Thermas transformou o espaço num drive thru para receber alimentos, itens de higiene pessoal e roupas que mais tarde seriam encaminhadas para o Centro de Referência da Diversidade (CDR), enquanto o dono do clube Bofetada atacou o governador do estado e o esquema de isolamento social.

Alguns lugares do mundo reviam as regras de doação de sangue, mas o Ministério da Saúde brasileiro informou, seguidas vezes, que não aceitaria sangue de homens gays, bissexuais e mulheres trans. Coube ao STF tomar outra decisão sensata e derrubar a proibição.

Nos Estados Unidos a morte de um homem negro ocasionada pela truculência policial fez com que o movimento #BlackLivesMatter
alçasse novos voos e expusesse vários racistas. Dois atores pornô criticaram os protestos e sugeriram que negros mereciam ser maltratados.

Sobrou até para RuPaul e para a produção do Drag Race que foram acusadas pela vencedora de uma das temporadas de não se importar com vidas negras. No Brasil, o tema ganhou ares de publicidade e teve produtora, cujo o dono fez acusações para o ator Victor Ferraz, que usou o movimento para impulsionar o lançamento de um filme.

Ainda sobre o mercado adulto, um ator usou o #VidasNegrasImportam para revelar que ganhava menos do que outros colegas apenas por ser negro, as quarentenas impulsionaram as vendas de bonecos sexuais extremamente realistas e Eliad Cohen estreou no OnlyFans (mas apenas para postar exercícios e receitas).

Pouco antes do inicio do mês do orgulho surgiram boatos de um suposto ataque contra o LGBTI e o Dentro Do Meio fez uma reportagem especial provando que o PRIDEFALL não passava de balela. Enquanto isso a Parada de São Paulo acontecia e causava polêmica por “ignorar” nomes importantes para história do movimento.

Uma das excluídas, inclusive, se envolveu numa grande polêmica por ter admitido o coto em Jair Bolsonaro. O nome de Kaká Di Polly passou dias entre os assuntos mais comentados da internet. O responsável pela Casa 1 também fez criticas a administração do dinheiro recebido pela organização da Parada.

Nesse meio tempo, J.K Rowling escancarou a transfobia que escondeu durante anos, vimos um perfil expor gays que estavam furando a quarentena para fazer festinhas e descobrimos o óbvio: mesmo de máscara, transar durante uma pandemia tem alto risco de infecção.

A insistência do vírus e o novo normal

Segundo semestre do ano e nem sinal do fim de uma pandemia, ainda assim a maioria de nós se viu obrigado a seguir a vida e investir no “novo normal” que incluía trabalhar em casa e não ver nossos amigos. Um normal bem ruim, na verdade.

Fizemos uma matéria especial para saber como drag queens de diferentes lugares do Brasil estava se virando nesta nova realidade na qual elas não podiam se apresentar em boates e a vida noturna tirou férias… o tal do novo normal.

Também fizemos matérias especiais sobre não binariedade, sobre como filmes adultos estão infringindo a lei ao trazer estupro no enredo e também uma lista com casas de acolhimento espalhadas pelo país que precisavam, e ainda precisam, de doação para sobreviver.

Líderes políticos conservadores continuaram se mostrando uma grande ameaça para população LGBTI, fosse Bolsonaro desprezando a vida e dizendo que usar máscara era coisas de viado ou Trump batendo o pé e não revogando a lei transfóbica que proibiu a entrada e permanecia no exercito.

Enquanto isso, Ellen DeGeneres e a fama de boa moça dela eram engolidas por uma avalanche de acusações que iam desde racismo até assédio nos bastidores. Chegou a especular que ela deixaria o programa, mas uma nova temporada já teve início com direito a pedido formal de desculpas.

Ainda no mundo do entretenimento, uma “piada” transfóbica de Marília Mendonça gerou repercussão quase que ao mesmo tempo que uma apresentadora da Record viralizou por reepreender LGBTfobia. Também perdemos Chi Chi DeVayne de forma prematura.

No Brasil, quando chegamos ao total de 20 mil mortos, a prefeitura de São Paulo disse que avaliaria a reabertura de Saunas e a polícia do Rio de Janeiro cumpriu um mandado para tirar moradores da Casa Nem de um espaço ocupado.

Também teve homem hétero passando vergonha dizendo que era tão lindo que fazia o tipo até de mulheres lésbicas, confirmação do envolvimento de uma facção criminosa no espancamento de uma travesti e lançamento de uma linha de roupas de Lil Nas X para ajudar a comunidade queer negra.

Último trimestre do ano e o entretenimento adulto

Com poucos dias de diferença o entretenimento adulto brasileiro perdeu dois nomes conhecidos. Theo Barone fez carreira na HotBoys e Loretto se dedicava a produções próprias no OnlyFans.

Também é neste trimestre que outra polêmica envolvendo esse universo explodiu. Na guerra pela audiência, um produtora menor acusou a Meninos Online de ser responsável por financiar o vazamento do filmes da concorrente e rolaram ameaças de processo de ambos os lados.

O Dentro Do Meio mergulhou nas transformações deste mercado mostrando como a pandemia afetou a produção de novos filmes e quais são as tendências por aqui. Entrevistamos Pedro Messina e publicamos o ponto de vista de Yuri Oberon sobre o racismo da indústria.

Também rolou um especial sobre como o publicações de sites LGBT ajudam a alimentar estereótipos e a hispersexualização do corpo negro. Especialistas falaram sobre as dificuldades de relacionar problemas das populações negras e LGBT. Infelizmente, também foi neste trimestre que houve o apagão do Amapá e em mais uma matéria especial mostramos como uma organização LGBTI se mobilizou para ajudar.

Houveram eleições históricas, que levaram mais pessoas trans para as câmaras municipais e também uma proposta vinda de Alexandre Frota para que seja obrigatória a presença de figuras LGBTI nas eleições.

Falando em história, a premiação mais importante dos mundos dos games teve dois jogos com protagonistas LGBT como destaque. Isso destoa de um estudo que mostra que há pouca diversidade nas inserções publicitarias na TV e nas redes sociais.

Depois de ser bloqueado na Tailândia, o Pornhub viu a receita encolher muito já que administradoras financeiras bloquearam transações para o site por conteúdo ilegal. Houve mudança nas regras, mas ainda é cedo para dizer se foram efetivas.

Outra coisa que ainda é cedo para saber é se conseguiremos, finalmente, ficaremos livres dessa pandemia, já que há notícias de vacinas sendo aplicadas no exterior e uma previsão de que uma campanha comece em janeiro. É esperar para ver.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
COMPARTILHAR