Redescobrindo a arte drag: os desafios de queens em quarentena

147
views
Mary Jane Beck, Chloe Stardust, Juhx e Alexia Twister

A quarentena imposta pela pandemia do coronavírus transformou o que a gente chama de rotina. Mudou desde a nossa forma de trabalhar até a forma como costumávamos nos divertir em boates e clubes LGBT. Mudou também a rotina das drag queens brasileiras.

Em comemoração ao mês do orgulho, conversei com 4 diferentes drag queens para entender como elas estão se adequando e sobrevivendo nesse período em que tudo, especialmente o trabalho delas, precisa se adaptar as normas de não ser tocado e visto apenas de longe.

Ok, RuPaul já tinha dito anos atrás que drag não é um esporte de contato, mas sabemos que o brasileiro tem a fama de ser mais caloroso, então, inevitavelmente depois das performances que sempre rola um abraço, um beijo ou coisa do tipo. Por aqui, o contato faz parte do esporte drag. Pelo menos fazia…

Sem mais delongas, veja como as rotinas de Mary Jane Beck, Chloe Stardust, Juhx e Alexia Twister se transformou desde que a quarentena começou.

Mary Jane Beck – Salvador

Com o nome inspirado numa música de Artpop de Gaga (com exceção do sobrenome que herdou da mãe drag), Mary Jane Beck nasceu inspirada em Adore Delano de Drag Race no Halloween de 2015.

“Eu já tocava em festas aqui em Salvador e acompanhei o início de meus amigos na arte. Juntou com a empolgação de Drag Race e deu no que deu. Poucos meses depois da minha primeira montação, comecei a fazer shows cantando em bares e festas daqui”, conta a artista.

Apesar de se julgar “troncha” na primeira performance, quando dublou Bitch Better Have My Money de Rihanna, Mary Jane tomou gosto pela coisa e já está há 5 anos se montando.

“Antes da pandemia os shows eram semanais. Sou residente da SHANTAY com Aimee, Spadina Banks e Gotham Waldorf. Nós já estávamos nos preparando para duas edições da festa. Na segunda edição, inclusive, teríamos o show SHANTAY EXTRAVAGANZA, mas tivemos que parar tudo”, explica Beck.

Para se adaptar sem ter que parar de se montar, Mary Jane começou a fazer lives. A “SexyBeck”, na qual ela canta, dubla, fala de sexo e conta histórias. Sobre o processo de se maquiar durante a quarentena, a drag diz que é “terapêutico”.

“O processo me concentra e me acalma. O público de Salvador já tá acostumado com show de drag todos os dias. Tem muitas lives acontecendo todos os dias, então quando não estou participando de uma, estou me divertindo enquanto assisto alguma colega”, pontua.

Quando questionada sobre se e como o isolamento poderia contribuir com o crescimento da própria arte, Mary Jane diz que está focada nas composições para lançar o segundo EP da carreira. “Acho que a contribuição da quarentena para Mary Jane é retomar essa vibe criativa e musical”.

Chloe Stardust – São Paulo

Embora já tenha tido contato com shows de drags no final da adolescência, também foi o reality Drag Race que impulsionou o nascimento de Chloe Stardust em meados de 2014.

“Foi assistindo ao programa que eu percebi que, por trás de toda a mágica que eu via nos palcos, haviam pessoas normais como eu. Começou com uma brincadeira e está durando até hoje”, explica Chloe.

A primeira performance foi num concurso e, apesar de achar que estava preparada, Stardust estava bem nervosa. “Deu tudo errado e eu caí no palco”. Mas a drag que nunca caiu num show, está para cair em breve, não é mesmo?

Foi a rotina de shows que na boate Zig que acabou com os nervosismos de Chloe quando o assunto era performar. “Teve um período em que eu performava todas as sextas e sábados. Em cada noite eu encarnava um artista ou tema diferente. Essa rotina quebrou meu nervosismo, eu aprendi a responder ao público e aproveitar”.

“Já na festa lunática, que é mensal, eu tinha 2 ou 3 ensaios com balé, além de ter que experimentar figurino. Sinto saudades dessa rotina”, pontua a artista ao relembrar da realidade antes da quarentena.

Chloe também relembra que existem tipos diferentes de ser drag queen. “Tem sim umas manas que já usavam a Internet como extensão do trabalho, criando conteúdo e faturando com a internet. Mas, tem as drags que vivem do palco, de performance e de djset”, explica.

Para ela, com o isolamento meio que todo mundo foi para internet, mas é preciso saber o que cada uma consegue oferecer para audiência e ainda tem a questão de o retorno financeiro não é tão imediato para quem não tinha uma plataforma tão forte antes de tudo isso.

Sobre o pós-quarentena, Chloe argumenta que “Todo esse processo tem me ajudado a sair da minha zona de conforto e conhecer novos espaços que eu não pensava em me arriscar. Seja numa estética diferente na make ou numa performance mais intimista numa live. Tudo é aprendizado, tudo é crescimento”, finaliza.

Juhx – Teresina

Apesar de uma base familiar que sempre teve contato com travestis e drag queens, foi depois de assistir Drag Race, mais especificamente a sétima temporada, depois de ver artistas mais diversos e que tinham um conceito diferente, que Juhx nasceu. Foi, inclusive, a mãe quem apresentou o programa.

“Lembro que, quando ainda morava em Cratéus, tirei a barba para me montar a primeira vez. Foi minha prima quem me maquiou e fomos num rolê para ouvir vinil. Me lembro de um disco da Madonna e quando tocou Erotica eu acabei perfomando para as pessoas que estavam lá”, relembra Juhx.

Mas foi em Teresina, tendo contato com outras artistas, que Juhx foi desenvolvendo o seu próprio senso estético para se tornar a drag queen que é hoje. Esse conceito, inclusive, sempre foi uma barreira para artista.

“Aqui em Teresina as pessoas não estão acostumadas a consumir uma drag como eu, embora exista lugares para em que performo ou toco como DJ. Antes da quarentena, eu tinha cerca de dois jobs por mês e me montar sempre funcionou como terapia”, argumenta.

Embora nos primeiros dias de quarentena Juhx não tenha sentido tanta falta da montação, aos pouco a saudade aumentou e ela começou a se maquiar para challenges, incluindo um só com drags barbadas, e festas virtuais com os amigos. Ela chegou a performar um áudio da avó falando sobre quarentena na velhice.

“Quando minha vó me fala para pensar na minha velhice, eu, estando isolada, me pego pensando sobre qual vai ser meu futuro enquanto artista, enquanto drag e todas as coisas que eu sou”, pontua.

Toda essa reflexão faz com que Juhx veja o quanto a quarentena já a fortaleceu. “Eu vou querer ocupar mais lugares. Não só lugares nos quais as pessoas estão acostumadas a ver drag queens. Durante o isolamento já estou ocupando mais a internet, mas vou querer ocupar mais”, explica.

Alexia Twister – São Paulo

Veterana e com maior tempo de carreira dentre as entrevistadas, Alexia teve contato com o mundo das drags aos 16 anos, quando ainda estávamos mais familiarizados com o termo “transformista”.

“Ali pelos anos 90, eu ficava grudada na televisão assistindo aos shows das transformistas. Era um conceito razoavelmente novo. Ao vivo, a primeira drag que vi foi Morgana Loren, que mais tarde acabou se transformando em uma das minhas mães drags”, relembra Twister.

Na primeira vez que performou, Alexia não teve o peso profissional. “Foi na casa de um amigo meu, que me produzia e juntos vivíamos uma grande brincadeira. Performar foi muito engraçado e divertido, assim como a primeira vez nos palcos”. Como fazia teatro, estar no palco perfomando durante um concurso teve um peso diferente para Twister que não estava muito preocupada em vencer. No fim das contas, ela se apaixonou por isso e não parou mais.

“Aos 40 anos, eu decidir fazer faculdade de teatro e isso transformou de novo minha relação com ele. Minha rotina também mudou muito com aulas pela manhã, ensaios de shows e peças pela tarde e apresentações e estudos durante a noite. Geralmente, os shows em boates aconteciam de madrugada”, conta Alexia.

E parece que transformação está intimamente ligada a história da artista. Se o primeiro contato foi com transformistas e a relação com os palcos transformou sua carreira, agora é a fez do isolamento social provocarem mais algumas mudanças no que Twister aprendeu sendo drag queen.

“Eu estou redescobrindo tudo. Antes ficar em casa era coisa raras, eu acabei vendo um bom motivo para olhar mais pra mim. Fiz um curso com o Alisson Rodrigues antes do inicio da quarentena e isso ampliou a minha percepção pela maquiagem dentro da arte Drag, que é tão plural e ampla”, explica.

Alexia também tem participado de lives no Instagram, seja entrevistando ou sendo entrevistada. No YouTube, todas as semanas tem vídeos do projeto Bom Dia Drag Queen, um telejornal com outras artistas. Também no Insta, ela tem mostrado novidades sobre a peça “Inhaí, Coisa de Viado” que teve a estreia adiada por conta da pandemia. Sobre esse período, inclusive, mais uma reflexão sobre transformação.

“É como uma reconfiguração. É um alerta da vida, que se transforma o tempo inteiro. E eu não digo isso com base espiritual ou em crenças religiosas, por observação. Um tempo em que somos forçados a viver um ‘dia de cada vez’ só pode estar me ensinando que é importante olhar para o hoje’, finaliza.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
COMPARTILHAR