Projetos reúnem profissionais e prestadores de serviço LGBTIs

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Foto: Urich Santana/Tem Q Ter

Durante uma consulta, Newton Padovani começou a ficar incomodado pela forma em que estava sendo tratado pelo médico. Apesar de se posicionar abertamente como gay, ele foi questionado diversas vezes sobre sua esposa, mesmo afirmando ser casado com um homem. A sensação de incompreensão pelo profissional de saúde lhe trouxe um alerta: onde estão os profissionais LGBTIs? 

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“Comecei a refletir sobre as experiências que LGBTIs têm com outros prestadores de serviços. Depois de alguns dias, resolvi ir ao dentista, e decidi procurar por um dentista LGBTI. Não sei se você já tentou encontrar um profissional LGBTI específico, mas no meu caso foi impossível. E foi nesse exato momento que eu pensei: ‘caramba, será que não existe um diretório ou algum serviço onde eu possa encontrar profissionais LGBTIs?’”, contou.

Dessa inquietação nasceu o GayPS, um projeto que mapeia os prestadores de serviços LGBTIs espalhados pelo país. Inicialmente mantido com um perfil no Instagram, o GayPS iniciou o cadastramento de profissionais no início do mês e, até o fechamento desta reportagem, conta com 300 pessoas cadastradas. São prestadores de serviços de diversas áreas, como saúde, beleza, cultura, além do cadastro de estabelecimentos comerciais geridos por LGBTIs.

“Encontramos profissionais de todas as áreas, desde meninas mestre-de-obras a drag queens que trabalham com marcenaria. Nesse momento, é difícil precisar uma área que aparece mais do que as outras. Por outro lado, existem áreas de baixíssimo engajamento. Médicos e profissionais de serviços gerais, como limpeza e entregas, ainda são muito poucos”, pontua Newton. 

E se a área médica não está tão presente no GayPS, ela é a base de outro projeto, o Lacrei, que também reúne advogados e empresas que respeitam a diversidade. “O Lacrei nasceu em 2019 de um app de atendimento jurídico para a comunidade LGBTI chamado Lacrei Jurídico”, explica Daniel Dutra, seu idealizador. 

Enquanto cadastrava profissionais no Lacrei, Daniel percebeu que não era apenas a área jurídica que necessitava de um banco de fontes específico. A falta de atendimento e de acesso a serviços em saúde o motivou a inserir profissionais da área na plataforma, divididos em sete categorias: médicos, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas e enfermeiros. Hoje, o Lacrei conta com mais de 600 profissionais cadastrados, sendo a maioria psicólogos.

E conforme as necessidades foram aparecendo, o Lacrei teve que se moldar a elas. “Vendo essa comunidade excluída dos estudos e do mercado de trabalho, criei também o Lacrei Oportunidades, onde usuaries poderão opinar sobre empresas que fazem políticas afirmativas de inclusão da comunidade no mercado de trabalho, e assim enviar seus currículos diretamente para elas”, complementa. Atualmente, o Lacrei está disponível online e em app para iOS, e a previsão é que a versão para Android chegue em junho.

Cobrindo diferentes mercados, o Lacrei e o GayPS acreditam na importância de monitorar o mercado LGBTI. “Toda vez que precisamos de alguém para nos prestar qualquer tipo de serviço, a primeira opção é sempre pedir uma indicação, e normalmente pedimos a uma pessoa próxima em que a gente confia. Os profissionais LGBTI são mais próximos das experiências do cliente, porque trazem uma maior afinidade com pessoas que tenham histórias de vida semelhantes a deles. Além disso, mapear e promover profissionais LGBTIs contribui para a nossa comunidade, pois mostramos a nossa existência. E existe ainda um terceiro ponto, que é estimular a comunidade LGBTI a usar o pink money dentro da própria comunidade”, conclui Newton.

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