Pensamentos conservadores tentam excluir mulheres trans do feminismo

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Foto: Ricardo Matsukawa/Tem Q Ter

Odara Soares é artista e modelo. Há uma semana, enquanto debatia em seu twitter com uma mulher cis, viu a expectativa de vida das mulheres trans e travestis ser jogada na sua cara: “ainda bem que [você] não passa dos 35 anos”. A agressão sofrida por Odara não é uma novidade. Além de enfrentarem a estrutura preconceituosa da sociedade, as mulheres trans e travestis têm outro obstáculo, o feminismo radical.

“O feminismo radical trans-excludente, por definição, defende a exclusão das pessoas e questões trans do feminismo. Isso se dá porque esse movimento parte da premissa que as reivindicações das pessoas trans seriam irreconciliáveis e antagônicas em relação às reivindicações das mulheres cis. Pessoas trans são injustamente ‘acusadas’ de reproduzirem estereótipos de gênero ao transicionarem, seja quando reivindicam a legitimidade de suas identidades, seja quando demandam alterações corporais”, explica Beatriz Pagliarini, escritora do blog Transfeminismo.com e doutoranda em linguística pela Unicamp. “Este movimento minimiza, de modo absolutamente cruel, as formas de opressão a que mulheres trans estão expostas, ao dizerem, mesmo implicitamente, que mulheres trans e travestis ‘escolhem’ sofrer violência por meio da ‘escolha’ da transição”.

Para Odara, o transfeminismo se faz urgente e necessário a partir do momento em que as mulheres trans e travestis não possuem sequer direitos básicos e fundamentais, e condena essa narrativa de que as mulheres trans devem ser excluídas do feminismo ao lutarem por pautas diferentes. “Temos necessidades semelhantes [das mulheres cis], necessidades que flertam, e necessidades divergentes. E é por isso que existe a interseccionalidade, que é uma das ideias que nos ajuda a perceber que cada um de nós é atravessado por diferentes marcadores, que operam de formas combinadas. Por exemplo, é impossível pensar a realidade da mulher brasileira, cis e trans, sem levar em consideração o racismo que marca a nossa sociedade. Da mesma forma, não é razoável discutir o racismo sem levar em consideração as demandas e experiências próprias das mulheres negras. Esses fatores se combinam de forma que os indivíduos tenham experiências múltiplas, muitas vezes marcadas pela limitação do acesso a direitos básicos e oportunidades. Ainda morremos cruelmente, somos brutalmente violentadas e extremamente negligenciadas pela sociedade”.

Beatriz, que também pesquisa sobre a saúde mental das pessoas trans, explica que a partir do momento em que o feminismo se torna uma ferramenta de luta importante, ele deve ser articulado para pensar as questões e vivências das pessoas trans. “O feminismo analisa a forma como as relações de gênero produzem relações de opressão para pensar formas de resistência. Nesse sentido, não dá pra assumir que o feminismo seja uma exclusividade de mulheres cis ou de pessoas cis, porque pessoas trans enfrentam discriminações cuja origem também são as relações de opressão de gênero”.

E a invisibilidade das mulheres trans e travestis ocorre em diferentes esferas. Segundo análise da Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, nos últimos quatro anos, 95% das notícias que utilizaram a manchete “homem vestido de mulher é encontrado morto” se referiram, na realidade, ao assassinato de uma travesti ou mulher trans, noticiado de forma transfóbica. A entidade divulgará no dia 29 de janeiro, Dia da Visibilidade Trans, o seu boletim com o total de pessoas trans assassinadas em 2020. Entretanto, ela já antecipou o ranking dos cinco estados que mais mataram pessoas trans: São Paulo, Ceará, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, todos com aumento de mortes no comparativo com 2019.

Ataques nas redes sociais de Odara Soares são frequentes. Foto: Reprodução/Instagram

“Se toda pessoa LGBTI se comprometesse a lutar conosco, e por nós, nós chegaríamos muito mais longe”, pontua Odara. “Infelizmente, como a maioria já têm direitos conquistados, então pensam que não têm porque se importar tanto, ou nos fortalecer, sendo que nós, transexuais e travestis, somos a linha de frente da comunidade LGBTI desde que o mundo é mundo. E ainda, por negligência social, não temos acessos básicos e fundamentais”.

Beatriz complementa que houve sim um avanço do reconhecimento das pautas LGBTI na sociedade, mas que ainda falta muito para avançarmos especificamente às questões da população trans. “Se pararmos pra pensar, o reconhecimento da autodeterminação para retificação de documentos é uma conquista muito recente, de 2018, e por isso ainda precisamos de alguns anos até percebermos o impacto de uma medida como essa. Eu menciono essa questão porque o acesso à retificação de documentos é um aspecto muito importante para que as pessoas tenham acesso a outros direitos, como educação, saúde e moradia. Ter o direito ao próprio nome é necessário, porém ainda não é o suficiente para que as pessoas trans tenham acesso a esses direitos. A luta contra a exclusão de pessoas trans é algo que toca em questões que não são sempre fáceis de serem abordadas de um ponto de vista convencional na luta política”. 

No campo eleitoral, ao ser questionada sobre o aumento de candidatos LGBTI eleitos em 2020 e, principalmente, mulheres travestis e trans, Beatriz afirma que é algo positivo, mas que necessita de um olhar mais aprofundado. “Você não separa o fato das pautas LGBTI estarem atingindo mais espaço com o fato de mais pessoas trans estarem conscientes dessa luta. Só acho potencialmente controverso o fato de algumas pessoas trans estarem filiadas a partidos de direita ou extrema-direita, que tradicionalmente lutam contra os nossos direitos. Isso levanta a discussão de que não adianta a representatividade pura e simples, é preciso que a reivindicação dos direitos LGBTI esteja compromissada e articulada com posições que defendam os interesses dos trabalhadores e, sobretudo, dos trabalhadores mais vulneráveis”.

Sobre o feminismo radical, Odara brinca que ele é “a terra plana do feminismo”, e vê uma desonestidade na argumentação contra os direitos da população trans. “Aonde que nós, mulheres trans, somos opressoras e agressoras de mulheres cis? Nem sequer temos poder estrutural para oprimir alguém. Não faz sentido algum, principalmente por nós sermos a classe mais estigmatizada e negligenciada da sociedade. Somos as últimas da fila pra tudo, não temos nada. E é muito desonesto querer tirar qualquer resquício de importância e atenção que nos derem”.

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