Para a população LGBTI, envelhecer é privilégio e não direito, diz especialista

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Foto: Divulgação/ Eternamente Sou

Como dizem alguns provérbios, a única certeza que temos nessa vida é a morte. Mas por não saber lidar com ela ou não querer morrer, boa parte da sociedade rejeita quem, tecnicamente, está mais próximo do fim: a população idosa. E quando essa população ainda tem de enfrentar as discriminações por gênero e sexualidade, a exclusão respinga no acesso à saúde pública e até na privação de direitos humanos. Isso, se a pessoa chegar viva até a velhice.

“O panorama da população idosa LGBTQIA+ é um panorama muito heterogêneo, a gente tem que pensar em qual velhice a gente está falando e quem tem o direito de envelhecer”, explica o geriatra Milton Crenitte. “Estimativas de associações como a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e o Grupo Gay da Bahia mostram que pessoas transexuais e travestis têm uma expectativa de vida de até 35 anos, ou seja, muitas morrem antes de chegar no período que a gente considera como velhice. Então, para algumas pessoas que fazem parte do grupo LGBTQIA+, envelhecer é um privilégio e não um direito”.

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Milton coordena o Ambulatório de Saúde da Pessoa Idosa do Hospital das Clínicas da USP e estuda a linha tênue entre envelhecimento, gênero, sexualidade e saúde LGBTI. No doutorado, ele está analisando 7 mil questionários que aplicou ao redor do país em idosos atendidos pela saúde pública. A pesquisa ainda está em andamento, mas ele já consegue afirmar que pessoas idosas pretas e pardas têm mais dificuldades no acesso à saúde, e que mulheres lésbicas encontram mais obstáculos para fazerem exames preventivos.

“O acesso à saúde se dá de uma forma diferente, baseado na identidade de gênero e na orientação sexual das pessoas. E por ser diferente, a promoção do envelhecimento saudável vai ser diferente para quem tem o acesso pior ou precarizado. Isso é uma desigualdade pra gente avançar”, pontuou. 

Ele explica que existe um problema estrutural na organização da saúde pública, muitas vezes regida por normas héteras cis normativas, o que afeta desde o formulário a ser disponibilizado aos pacientes, o banheiro das instituições, se há respeito ou não ao nome social de uma pessoa e se o profissional que vai atender esse paciente entende o contexto em que a pessoa está inserida. 

Mas o Brasil chegou perto de ter uma política de saúde pública inclusiva. Entre os anos de 2011 a 2013, o Ministério da Saúde publicou um conjunto de normas para isso, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, que, infelizmente, ficou apenas no papel. O desafio hoje é integrar as diretrizes deste documento com o Estatuto do Idoso, uma lei em vigência desde 2003. Algo que a Câmara dos Deputados está tentando fazer com o projeto de lei nº 94/2021, que garante o direito à saúde pública pela população idosa LGBTI, mas essa PL ainda está nas fases iniciais de tramitação.

Foto: Divulgação/Eternamente Sou

Velhice e doença

E enquanto a luta pelos direitos da população idosa LGBTI permanece, os ataques e reforços a estereótipos surgem de todos os lados. No começo do mês, a Organização Mundial da Saúde, a OMS, incluiu a velhice na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), o que gerou críticas por parte de movimentos sociais e políticos. Para Luis Baron, vice-presidente da ONG Eternamente Sou, que atua com o atendimento psicossocial às pessoas idosas LGBTI, atrelar velhice com doença não é uma novidade, já que este pensamento está enraizado na própria comunidade LGBTI.

“Quando se fala em velhices LGBTI, eu gostaria de fazer um recorte menor, e falar da comunidade em si. Para as pessoas em geral, a velhice é uma doença. E quando você adoece, você deixa de fazer parte desse grupo social, você entra numa seara de invisibilidade. No caso da velhice LGBTI, essa invisibilidade vem dentro da própria comunidade. A gente se torna invisível como todos os velhos”, pontua.

Luis acredita que a maior parte da discriminação vem da letra G da sigla, já que a população gay é, na sua opinião, muito mais atrelada à vaidade e em uma busca incessante por padrões perfeitos. “A gente vive um momento em que eu chamo de sociedade dos clones. Às vezes você vê um casal de homens gays e você jura que eles são irmãos gêmeos. Não há nada contra isso, eu acho fantástico. Mas às vezes você vê um grupo grande, como antes da pandemia eu via 10, 15 grupos no Shopping Frei Caneca, por exemplo, e eles eram todos iguais. Tinham o mesmo tipo de barba, o mesmo tipo de corpo, o mesmo tipo de roupa. Então, isso é tribal, é um padrão de organização desse grupo. Mas que é muito cruel, porque um corpo dissidente dessa estética já não serve para aquele grupo. E a velhice traz essa dissidência do corpo, porque a velhice é algo que as pessoas não querem ver”.

Em março de 2020, a Eternamente Sou estava pronta para inaugurar sua sede, mas no meio do caminho tinha uma pandemia, o que inviabilizou esse plano. A entidade então se organizou para oferecer suporte online. Entre aulas de inglês e de culinária, atendimento psicológico ou reuniões para conversas e desabafos, a Eternamente Sou tem mais de 600 horas gravadas em lives e reuniões e atende, hoje, cerca de 200 idosos LGBTI. 

E se a pandemia afetou a instituição, ela também afetou quem ela atende. Com o coronavírus, os idosos passaram a lidar com mais um estigma e o peso de serem chamados de grupo de risco. “Eu faço sempre uma brincadeira. Quando eu era novo, eu era grupo de risco porque existia HIV e eu era gay. Agora eu sou grupo de risco porque existe a covid e eu sou velho. Então, eu vivo no grupo de risco há muito tempo. E é claro que quando você coloca essa medalha de grupo de risco no peito de alguém, você pode gerar ódios muito arraigados, ou a ideia de que aquela pessoa é descartável. ‘Olha, esse grupo é de risco, então vamos afastar’. Você cria mais um estigma sobre algo que já é estigmatizado, que é a própria velhice”, conta Luis.

Hoje, Luis segue com planos. Quer casar e abrir um negócio. Ele também retomou as atividades do perfil do Instagram Tô Passado, que criou para trocar memórias e vivências entre pessoas LGBTI com mais de 50 anos. Para ele, o maior desafio é a sociedade mudar o que ela entende como velhice. Porque o idoso quer transar, o idoso tem planos e, principalmente, o idoso ainda quer viver.

“Eu sempre digo que a minha vida, assim como a vida das pessoas, é um rio que vai andando. Claro que existem os marcadores da adolescência, da maturidade, da juventude, mas esse da velhice é muito estranho porque é um marcador que te imputam de fora para dentro. Quem faz o reconhecimento sobre a minha velhice não sou eu, é o outro. E a velhice é um estado de espírito que as pessoas tentam imputar onde a pessoa está aposentada da sua existência, ela sai do mundo produtivo e do mundo reprodutivo e entra num universo de inatividade. Isso é um erro”. 

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