Glauco Mattoso: o poeta cego, gay, sadomasoquista e fetichista que se classifica como “postmaldicto”

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Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

Muitos podem conhecer o nome de Glauco Mattoso pelo verso de “Língua”, de Caetano Veloso, quando ele diz “Nomes de nomes / Como Scarlet Moon de Chevalier / Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé / E Maria da Fé / E Arrigo Barnabé”. Faz sentido demais o nome de Glauco numa canção que fala sobre a língua portuguesa, pois o poeta é um experimentador da linguagem, das palavras e da história da língua portuguesa. E para além disso, ele é um provocador.

Glauco Mattoso é um pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva. Seu nome artístico surgiu de sua condição de saúde: um glaucoma que o deixou cego nos anos 90, após uma série de experimentações visuais dentro do universo da poesia. Enfim, voltemos no tempo: Glauco estudou biblioteconomia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e Letras na USP; embebido nesse universo de contracultura e resistência à ditadura militar, ele se viu envolvido no universo dos poetas marginais.

É a partir desses movimentos que ele começa a publicar o fanzine Jornal Dobrabil (um trocadilho fonético com Jornal do Brasil), periódico de caráter experimental, poético e panfletário, onde ficava claro o caráter anárquico e experimental de Glauco. Munido de uma máquina de escrever Olivetti e fazendo xérox de suas páginas, o fanzine tinha uma linguagem que se conectava a poesia concreta em suas construções visuais, porém com a linguagem desbocada, sexual e escatológica que marca toda a produção do poeta.

Fetichista, sadomasoquista, podólotra e encantado pelos odores masculinos, Glauco Mattoso nunca teve pudores de falar isso, nem de colocar isso como parte essencial de sua poesia. É a partir de sua existência enquanto homem gay e ser sexual que sua poesia cresce e toma corpo.

Glauco Mattoso possui uma obra vasta e diversa

Nos anos 1980, Glauco produziu uma vasta obra gráfica, com trabalhos nos campos da poesia concreta e também dos quadrinhos. Nessa época, ele escreveu em diferentes publicações alternativas, como n’O Pasquim e no jornal Lampião da Esquina, precursora publicação LGBT.  Além disso, o poeta também teve seu nome impresso em trabalhos nas revistas Chiclete com Banana, Tralha, Mil Perigos, SomTrês, Status, entre outras.

Com o tempo seu glaucoma avança e, nos anos 90, ele fica completamente cego, deixando de lado sua produção visual, dedicando-se mais à música e as poesias. Entre a década de 90 e o início dos anos 2000, seus poemas foram musicados por artistas como Wander Wildner, Luiz Thunderbid e Alexandre Nero (conhecido pelos trabalhos de ator, Nero também possui uma longa carreira no universo da música).

Em entrevista para a Biblioteca Pública do Paraná, Glauco explicou o aumento de sua produção textual nos anos que se seguiram a sua cegueria: “A poesia se advolumou porque fiquei sem outras alternativas artisticas e porque, ja apposentado por invalidez, tive mais tempo para a dedicação integral. Aquella compulsão a que me referi foi a excappatoria que encontrei para não me mactar, não me drogar nem enlouquescer, ja que a cegueira, ao contrario do que allegam os ceguinhos politicamente correctos, é uma desgraça incontornavel” – notem aqui a grafia particular que ele usa, que obedece as normas anteriores à reforma ortográfica de 1943.

Com uma obra vasta, nos últimos anos Glauco Mattoso passou a investir na produção de e-books e tem distribuído sua obra de forma mais alternativa e independente. Através do selo editorial Casa de Ferreiro ele tem feito uma gama de publicações que escoam a sua obra tanto atual quanto aquelas edições já esgotadas. Ainda hoje sua poesia segue sendo anárquica, transgressora e ousada, seguindo a sua intenção de ser um “postmaldicto”. “Sempre affirmei que acceito todos os rotulos, mas prefiro o de “postmaldicto”, ja que no postmodernismo todas as tendencias se mixturam”, explica o poeta.

O poeta fetichista Glauco Mattoso

Pequeno guia para conhecer mais de Glauco Mattoso:

1. Veja a entrevista de Glauco para o projeto Memórias da Diversidade Sexual do Museu da Diversidade Sexual.

2. Assista ao curta “Filme para Poeta Cego” (2012), de Gustavo Vinagre. Disponível no Porta Curtas.

3. Leia a entrevista de Glauco para a Biblioteca Pública do Paraná.

4. Baixe as obras de Glauco Mattoso de forma gratuita no site do selo editorial Casa de Ferreiro.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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