Marlon Riggs: o amor entre homens negros como um ato de revolução

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Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

“Homens negros amando homens negros é um ato revolucionário”, diz um dos letreiros de Línguas desatadas (Tongues Untied, 1989), documentário de Marlon Riggs. Essa é uma frase bastante definidora de sua obra: cineasta, poeta e professor universitário, Marlon se debruçou de forma sincera e intensa sobre as questões de raça e sexualidade nos Estados Unidos, criando obras que ainda refletem e se conectam com o nosso tempo de forma absolutamente forte.

Nascido no Texas, Riggs mudou-se muito por causa do emprego dos seus pais, o que fez com que sua educação fosse dividida entre os Estados Unidos e a Alemanha ocidental (na época ainda havia essa divisão territorial). Nos anos 1970, Riggs passou a estudar história na Universidade de Harvard e foi nessa fase de estudos que se entendeu de forma mais sólida enquanto homem gay, mais diretamente um homem negro gay.

Na época, não haviam pesquisas sobre a homossexualidade em Harvard, por isso Riggs conseguiu uma petição para estudar de forma independente a representação da homossexualidade masculina na ficção e na poesia. Essa pesquisa seria atravessada pelas questões raciais e isso demarcaria todos os trabalhos posteriores de Marlon. Ser um homem negro gay colocava Marlon em dois cenários: dentro da comunidade negra, ele sofria homofobia; dentro da comunidade gay, ele sofria racismo.

Na virada para os anos 80, Riggs se forma em jornalismo, com foco em documentários e isso vai definir os rumos de suas obras futuras. O documentário Ethnic Notions (1987), por exemplo, se debruça sobre os estereótipos negros reproduzidos na cultura pop americana da virada do século XIX para o século XX, abarcando personagens de filmes, cartoons e revistas populares.

Marlon Riggs e elenco em Tongues Untied
Cena de Tongues Untied

Em 1989, Marlon vai lançar Tongues Untied, no Brasil chamado de Línguas desatadas, seu filme mais simbólico, que faz esse cruzamento muito forte entre as questões raciais e de sexualidade. Homens negros se beijando em meio a declamações poéticas, rimas advindas do hip-hop ao lado de histórias da cultura ballroom, tudo sob um olhar extremamente íntimo de Riggs. É interessante ver ele investigando essas questões que o foram negadas: a comunidade negra o nega qualquer possibilidade de masculinidade, de entendimento enquanto homem negro, enquanto a comunidade gay o coloca no espaço do não-belo, do não-atrativo.

No olhar de Riggs, essas vivências se transformam em poesia e pra isso ele vai trazer outros homens negros gays muito importantes para a cultura LGBT dos anos 80, como, por exemplo, o poeta Essex Hemphill. Línguas desatadas traz complexidade para as vivências dos homens negros gays, traz olhares múltiplos e complexos e segue sendo um tratado interessantíssimo sobre essa existência naquele espaço-tempo. Durante a produção desse filme, Riggs foi diagnoticado com HIV/AIDS – falaremos mais disso daqui a pouco.

Línguas desatadas foi produzido, em partes, com dinheiro estatal, para ser transmitido na TV estadunidense. Até os políticos de direita descobrirem que teriam horríveis mensagens homossexuais, incluindo homens negros gays a se beijar e vamos de boicote! O filme de Riggs acabou se tornando uma carta na manga para que reacionários brancos e religiosos defendessem o direito da família e o não-uso dos recursos estatais no fomento de obras artísticas. As tentativas de censura do filme acabaram impulsionando a divulgação internacional do filme, assim o doc de Riggs fez carreira em festivais, incluindo aí a premiação com um Teddy Bear (o prêmio LGBT) do Festival de Berlim.

Voltemos a descoberta da AIDS por Riggs: a doença não o fez parar. Ele continuou dando aulas, preparando projetos e gravando filmes. Entre 1990 e 1991, por exemplo, ele lança Affirmations e Anthem, curtas que falam mais uma vez sobre a sexualidade de homens negros gays. Em 1992, ele lança Color Adjustment, exibido pela emissora PBS, que fala sobre as representações de pessoas negras na TV norte-americana. Também em 1992, ele lança o excelente Non, Je Ne Regrette Rien (No Regret), em que ele coloca cinco homens negros e HIV positivos para falar sobre as suas vivências e questões.

Marlon Riggs em Black is... Black Ain't
Marlon Riggs em Black Is… Black Ain’t

Em 1993, Marlon Riggs começa a trabalhar em Black Is… Black Ain’t, porém em meados de 1994 ele morre em decorrência de complicações da AIDS. Seus parceiros de projeto decidem finalizar o longa e esse é sua espécie de canto do cisne: um filme extremamente delicado, em que ele volta fundo em suas raízes negras pra discutir de forma complexa as relações entre raça, sexualidade, afeto e construções sociais. O longa conta com participações de pensadores como Angela Davis, bell hooks e Essex Hemphill – que morreria em 1995, também em decorrência de complicações da AIDS.

Quando assistidos hoje, os filmes de Marlon Riggs seguem assustadoramente atuais: o racismo é questão sempre urgente dentro da comunidade LGBT e a homofobia segue vitimando pessoas e cerceando suas liberdades. Além disso, segundo a Vigilância Epidemiológica do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, homens negros morrem duas vezes mais que brancos por AIDS; o risco de uma pessoa preta, infectada pelo HIV, morrer por AIDS é 2,4 vezes maior do que o de uma pessoa branca.

Seria mais bonito poder dizer que os trabalhos de Riggs eram retratos de sua época, polaróides da história negra LGBT, porém seria leviano: seus temas seguem necessários e urgentes. Seu nome, sua poesia e sua arte nos servem ainda como alimento, como propulsor e como reflexão para pensarmos de forma distinta o afeto, as construções sociais e o amor como movimento de revolução e de transformação.

Pequeno guia para conhecer mais de Marlon Riggs:

1. Procure pelos filmes Tongues Untied e Black Is…Black Ain’t. Nos Estados Unidos a obra de Riggs foi relançada pela Criterion Collection; no Brasil é mais complexo encontrar e ainda dependemos muito de mostras e exibições em eventos.

2. Confiram o texto de William Alves, no site Impressões de Maria, sobre os curtas de Marlon.

3. Ouça Freetown Sound, disco de Blood Orange, de 2016. Na faixa “With Him”, há um sample retirado do filme Black Is…Black Ain’t. Muitas da obra do Blood Orange trazem essa conversa com a estética e as construções de Marlon.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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