“Nunca senti prazer gravando filmes pornô”, diz Riu Melo

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Garoto do Rio. Este poderia ser o nome de algum filme biográfico sobre a vida do ex-ator pornô gay Riu Melo. Descoberto em 2008 por um produtor gringo na Praia de Ipanema, o twink carioca fez sucesso no ramo como passivo, principalmente pelas cenas bareback com atores super dotados.

Por conta de um casamento, em 2013, Riu largou a carreira de maneira repentina após gravar um filme para a HotBoys. Hoje técnico de enfermagem, ele divide seu tempo entre a faculdade e o trabalho na ONG “Pela Vidda RJ”, instituição que dá suporte a pessoas com HIV/AIDS.

Em entrevista exclusiva para o Dentro do Meio, Riu Melo conta que ainda é reconhecido por onde passa e confessa o desejo de gravar seu último filme pornô para se despedir oficialmente dos fãs. “Estou estudando propostas”, afirmou. Leia a o bate-papo completo abaixo.

Dentro do Meio: Quando e como surgiu a ideia de entrar no pornô gay?

Riu Melo: Eu tinha 19/20 anos e tinha acabado de sair do exército. Eu estava numa praia de Ipanema com um amigo quando o produtor Alexander [da “Alexander Pictures”] me fez o convite para eu gravar um filme solo. A partir do filme solo, eles começaram a me chamar para fazer outros filmes. Na época, eu botei meu nome de “Peter Chandão” e fiz meu primeiro contrato com Alexander. Ele que deu nome “Riu Melo”.

Dentro do Meio: Como foi a reação da sua família e de amigos quando descobriram?

Riu Melo: Na verdade ninguém descobriu, eu contei. Eu lembro como se fosse hoje, com meu primeiro filme, eu peguei o dinheiro e fui levar para montar a cozinha da minha mãe. Minha madrinha, que é minha irmã mais velha, pegou e falou assim “da onde saiu esse dinheiro?”, eu peguei e falei “ah, gravei filmes com homens” só que eu não tinha como provar porque não era como é hoje em dia. Depois de uns três ou quatro meses, eu ganhei o DVD da produtora e mostrei. Eu nunca sofri nenhum preconceito por parte da minha família com isso não, graças a Deus! Se eles têm, eles nunca me falaram. Eu sempre joguei limpo com minha família. Todas as coisas que eu faço, eu pego e falo. Eu prefiro que eles saibam da minha boca do que pela boca de terceiros. Amigos também nunca ligaram.

Dentro do Meio: Na época, você trabalhou com produtoras nacionais e internacionais. Deu pra ganhar muito dinheiro?

Riu Melo: Eu comecei a gravar com produtoras de fora. No começo não deu para ganhar muito dinheiro, mas com o passar do tempo deu sim tanto que é com esse dinheiro que eu pago minha faculdade hoje.

Dentro do Meio: Sua página no XVideos possui quase 100 milhões de visualizações. Quando entrou no ramo, esperava fazer tanto sucesso assim?

Riu Melo: Na verdade, quando eu entrei, eles falaram que seria só DVD e que nem ia para internet. Eu, trouxa, caí. Eu não imaginava ir para lugares LGBTQI+ e ser reconhecido. Eu achava que com o tempo as pessoas iriam esquecer. Eu não gravo desde 2013 e muitas pessoas ainda se lembram de mim. Eles falam que eu me tornei um homem e continua com a mesma cara. É meio louco, mas eu gosto.

Dentro do Meio: Nos seus filmes, seus parceiros eram dotados. Como era para você encará-los? Você tinha alguma exigência?

Riu Melo: Em filme, era diferente do que na vida pessoal. Tudo era muito mecânico para mim, eu não tinha exigência. Eu só não gostava quando era novato porque levava o dia inteiro para gravar. Quando a pessoa já era experiente nisso, era muito rápido. Eu gostava de fazer bem rápido e prático.

Dentro do Meio: Você sentia prazer em fazer as cenas ou era tudo profissional?

Riu Melo: Eu nunca senti prazer nos filmes. Poderia ser a pessoa mais bela do mundo, mas eu não conseguia. Já aconteceu de eu querer sentir prazer, eu não conseguir porque era tudo mecânico e depois eu ver o filme, e eu mesmo me masturbar me vendo ali.

Dentro do Meio: Já rolou de ficar com seu parceiro de cena fora das câmeras?

Riu Melo: Já aconteceu de eu pegar gente fora dali e até morar comigo. Foi o caso do Fernando Albuquerque. Inclusive no filme que eu o conheci, eu fiz passivo e ativo com ele. Nas cenas eu não sentia tesão, mas em casa quando nós fazíamos ‘as coisas’, eu sentia prazer. Louco, né?

Dentro do Meio: No pornô gay existem homens heterossexuais que fazem pornô gay por dinheiro e que se intitulam de “Gay-4-Pay” (em tradução, “gay por dinheiro”). Alguns atores com quem gravou se afirmavam hétero, inclusive o próprio Fernando Albuquerque. Como era a relação com eles?

Riu Melo: A maioria fala que é hétero. Minha relação com eles era de boa. Raramente, eu gravava filmes com pessoas que se diziam gays. Eu mesmo falava que eu era um ‘gay mutante’ e nem existia isso. Hoje eu me considero pansexual. A gente levava isso como um trabalho qualquer.

Dentro do Meio: Você tem contato com algum ator?

Riu Melo: Eu tenho contato com alguns até hoje. Eu tenho contato com o Fernando Albuquerque (hétero), Marcelo Mastro (gay), Kadu (gay) e Eros (gay). Acho que só.

Fernando Albuquerque, Marcelo Mastro e Kadu são atores com quem Riu Melo ainda tem contato.

Dentro do Meio: Na maioria das suas cenas, você fazia passivo. Inclusive, muitas cenas eram sem camisinha. Como você se preparava?

Riu Melo: Eu tenho um amigo que trabalha em um projeto chamado “Projeto Praça Onze” no qual eu entrei em 2008/2009 para tomar o PrEP, na época estava em fase de estudos. Eu fui um dos primeiros a tomar, hoje em dia é liberado. Então, eu já sabia o que era janela imunológica e os filmes não explicavam. Mesmo fazendo teste de HIV existia o risco de contaminação pelo vírus então eu me prevenia com o PrEP sem saber se era eficaz ou não. Hoje em dia sabe-se que é eficaz. E no caso de ser passivo, eu me preparava dois dias antes. Eu evitava comer feijão, só salada de frutas… No dia da gravação, eu fazia a famosa chuca.

Dentro do Meio: Quando e por qual razão você largou a pornô?

Riu Melo: Desde quando eu comecei a gravar, antes de receber a proposta, eu sabia que tudo tinha um começo, meio e fim. Mas na verdade, eu parei assim do nada. Em 16 de fevereiro de 2013, eu gravei o filme do padrasto [do “Hotboys”] e parei de gravar porque eu casei com uma pessoa e eu me sentia mal de fazer isso. Eu não aceitaria [se fosse comigo]. Daí eu decidi parar.

Dentro do Meio: Mesmo depois de anos, eu vi que muitos fãs sentem saudades do seu antigo ofício. Pensa em voltar para agradá-los ou pelo menos abrir um onlyfans?

Riu Melo: Eu tô pensando que daqui a um tempo, talvez futuramente, eu grave meu último filme porque ficou meio sem nexo, eu sumi do nada. Estou estudando propostas. Hoje em dia eu não teria paciência para alguém chegar e falar assim “Riu, faz isso, faz aquilo, para e olha para câmera”, eu não teria. Mas eu penso sim gravar o último filme depois de surgir uma ideiazinha mas para os fãs mesmo. Seria o último filme para acabar para ter o começo, meio e fim mesmo já que o meu só teve começo e meio.

Dentro do Meio: Como é sua vida hoje?

Riu Melo: Minha vida hoje é estudar e trabalhar. Eu trabalho na ONG “Pela Vidda RJ” fazendo testagens de ISTs e faço faculdade de enfermagem. Sou técnico de enfermagem.

Dentro do Meio: Muitos atores que se aposentam, deletam suas redes sociais e voltam para o anonimato. No seu caso, você ainda utiliza o nome “Riu Melo”. Vi que seu nome real é outro, você pensa em seguir carreira artística?

Riu Melo: Não. Eu criei esse Instagram mais por causa dos fãs que ficam adicionando muito na minha rede social pessoal e tem muita gente que não respeita. Não pretendo seguir carreira artística, pretendo ser enfermeiro da Polícia Civil.

Dentro do Meio: Como se interessou por enfermagem?

Riu Melo: Pela minha família. Minha tia e minhas primas são enfermeiras, daí comecei a gostar. Fiz o curso técnico e agora a faculdade. Sinto o maior prazer em ajudar as pessoas. Eu amo muito! Eu tô com vontade de terminar a faculdade de enfermagem e com dinheiro dela pagar uma de medicina. Olha que loucura!

Dentro do Meio: Você trabalha na ONG Grupo Pela Vidda RJ, uma das primeiras organizações destinada a pessoas com HIV/ AIDS no Brasil. Qual é o seu maior desafio lá?

Riu Melo: O maior desafio é fazer a pessoa entender que o HIV é somente um vírus, que pode ser tratado e que pode conviver com ele normalmente. Explicar que ele só vira uma doença quando não é tratado e que ela deve continuar se protegendo, fazendo os exames de ISTs e cuidar do outro também.

Dentro do Meio: Na época quando você fazia pornô gay, sexo sem preservativo ainda era tabu e estúdios que trabalhavam com bareback eram muitos criticados. Mesmo alertando sobre a importância do uso de preservativos no início das cenas, hoje em dia é quase unânime sexo sem preservativo em produções adultas. Você acredita que a indústria pornô desencoraja o uso do preservativo?

Riu Melo: Sim, mas hoje em dia existem várias maneiras de se prevenir. Mesmo transando sem preservativo, pelo menos contra o vírus HIV, existe o PEP, o PrEP e os exames que são feitos, mas daí tem janela imunológica… Hoje existe um leque de opções para se prevenir contra o HIV e outras ISTs.

Dentro do Meio: Numa entrevista de 2013, você disse que tinha interesse em escrever um livro sobre sua história. A ideia ainda existe?

Riu Melo: Uma biografia, existe sim.

Dentro do Meio: Tem algum arrependimento?

Riu Melo: Com a cabeça que eu tenho, eu não me arrependo de nada do que faço. Antes de fazer, eu penso muito bem.

Dentro do Meio: Qual seu conselho para quem tem interesse de virar ator pornô?

Riu Melo: Cara, ter certeza do que é isso que a pessoa quer. Crie um personagem e não se arrependa de nada que fizer. Fica marcado para vida toda.

Dentro do Meio: Por último, quais são os planos de Rui Melo?

Riu Melo: Riu Melo não tem muitos não, mas o Marcos tem. O plano do Riu Melo é, talvez, futuramente, fazer o último filme para encerrar [a carreira] literalmente. Outros planos não existem no momento.

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Felipe Caldas é jornalista em construção criativo e curioso. Ama tudo relacionado a internet, cultura pop e ao universo LGBT.
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