Nem homem e nem mulher: debatendo a não binariedade

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Como conversamos durante o Mês Do Orgulho lá no Instagram, a sigla e comunidade LGBT passou por diversas transformações para abraçar diferentes tipos de sexualidade e identidades de gênero. Estima-se que hoje existam 12 letras para nos representar e dentre as identidades que se encaixam na sigla está o “não-binário”.

Há uma certa resistência, inclusive entre LGBTs, em entender e respeitar o conceito da não binariedade, afinal, desde sempre somos ensinados que só existem duas possibilidades. Na teoria, quando não está claro, está escuro, o que não está molhado, está seco e, por consequência, o que não é homem é mulher.

No entanto, além do meio termo nos exemplos citados, quando falamos de pessoas, o assunto é muito mais complexo. Sendo assim, é perfeitamente possível que uma pessoa não se identifique com o gênero que lhe foi designado ao nascer e também existe a chance de que essa pessoa não se adeque a nenhuma das caixas que já foram criadas, ou seja, homem e mulher.

O Dentro Do Meio falou sobre não binariedade, linguagem neutra e vivência com duas pessoas que não se identificam como homem ou mulher para ajudar a desmistificar alguns conceitos ultrapassados e desconstruir preconceitos.

A descoberta

Todos nós da comunidade LGBT passamos por um momento em que notamos que tem algo diferente na gente. Não é como se fossêmos anormais, mas o que é conhecido como “natural” acaba não contemplando a gente. A descoberta da não binariedade passa pelo mesmo caminho.

“Me descobrir como uma pessoa não binária foi engraçado. Em meados de 2017 eu estava namorando uma pessoa trans não binária e isso começou a ficar mais presente na minha vida cotidiana. E um dia essa pessoa apontou que eu talvez também pudesse ser não binário e a princípio isso me incomodou porque eu não estava pronto para ter essa conversas”, conta Dani Vas que hoje se identifica como não binário.

Dani ainda comenta que, embora tenha rejeitado a possibilidade logo de cara, aos poucos começou a questionar se, mesmo se identificando como bissexual, ainda não estava em um armário. Numa análise, ele começou a refletir sobre “minha performance e como eu queria aparecer para outras pessoas”.

O caminho de Kaique Fontes foi parecido, também bissexual assumido, ele nunca se sentiu contemplado com a definição de “ser homem”. “Nunca me senti homem, vivi como homem durante boa parte da vida e não senti necessidade de mudar nome, mudar performance ou coisas do tipo, mas sempre notei que os homens que eu conhecia eram diferentes e nenhuma das coisas que eles diziam que faziam eles homem, me contemplava”.

Quando questionado sobre como percebeu que se tratava de uma questão de gênero e não de orientação sexual, já que muitos homens gays também não são contemplados sobre “ser homem” de acordo com o que a sociedade espera, Kaíque explicou que a questão de gênero tinha mais a ver com como ele se via do que como os outros podiam enxergá-lo.

“Meu gênero tinha a ver comigo, com como eu me via. E eu não me via homem como os outros. Mas também não me via ‘feminino’ como as pessoas diziam que ‘bicha’ era, então não tive muito lugar pra pensar outras maneiras de masculinidade porque não sentia que me cabia”.

Vivência

É comum que a gente enxergue a não binariedade como uma outra definição exata. Se não é homem e mulher, então é não binário. Mas a não binariedade engloba outras dezenas de identidades. Há quem se defina agênero, neutrois, bigênero, dentre outras que abordaremos com mais detalhes num vídeo especial no nosso canal do YouTube.

Para Dani, levou um tempo até que ele entendesse onde exatamente ele se encaixava nessa história: o gênero fluído. “Eu passei por vários rótulos dentro do guarda-chuva da não bináriedade, sempre meio que transitando. Hoje, o jeito que eu consigo me definir é com uma metáfora que diz ‘é como se fosse um carro que anda bem devagar sem nunca estacionar necessariamente em lugar nenhum”.

A identidade é compartilhada por Kaíque que complementa a linha de racicinio do namorado dizendo que enxerga gênero como um espectro e não uma linha reta entre homem e mulher. “É comum às vezes me identificar mais com aspectos de feminilidade do que outros, mas depois volto pra esse estado de “não-homem”.

Pronomes e linguagem adequada

Uma das maiores discussões envolvendo pessoas não binárias com certeza é o uso de pronomes e linguagem neutra. O caso se torna ainda mais complexo quando pensamos especificamente na língua portuguesa que, normalmente, usa o gênero masculino para nivelar a neutralidade. Se existem 100 pessoas numa sala, mas somente uma é homem, a regra pede que usemos “todos”.

Na internet, para tentar driblar essa questão, algumas pessoas começaram a sar a letra X e o símbolo @. Mas isso causou mais confusão, já que na tentativa de incluir, acabou-se por excluir pessoas com deficiência visual e com dislexia. O meio termo agora é usar a letra E como neutralizados. No exemplo anterior se usaria todEs.

“Dado que a língua é viva, é natural que ela vá se alterando e a gente entendendo o que funciona e o que não funciona. Verbalmente usar X e @ não funciona e também prejudica leitores automáticos para pessoas com deficiência visual. Acho que o caminho é ir construindo pronomes neutros sobre tudo quando você não sabe o gênero de quem tá lendo ou com quem você tá falando”, argumenta Dani.

Ele ainda aponta que a discussão extrapola a questão da não binariedade e entre feministas e profissionais de psicologia já há um discussão em torno do substantivo “psicologo” para defini-los sendo que na categoria a maioria são mulheres, então, o mais adequado, seria neutralizar o nome e usar psicologues.

“Também é importante lembrar que nem toda pessoa não binária quer usar pronomes neutros. A pessoa pode escolher o que faz mais sentido para ela e isso precisa ser respeitado. Geralmente a pessoa diz”, finaliza.

Kaíque, por sua vez, aponta transfobia presente no discurso de quem não quer se adequar a linguagens mais inclusivas. “Soa transfóbico usar o discurso de que pessoas disléxicas se prejudicariam com uma troca de letras para adequar pessoas trans dado que a gente não deixa de usar o português de maneira complicada pensando na adaptação deles, ou não deixa de usar números com quem tem discalculia. O que também é um problema! É uma questão de aprendizado e já tem vários países que ensinam a utilização de pronomes neutros e a inclusão dos mesmos pra se referir as pessoas”.

O caminho do respeito

Mesmo dentro da comunidade, em que aceitação deveria ditar as regras e pautar pessoas no respeito, é comum vejamos piadinhas sobre a não binariedade. Curioso perceber que nós, que lutamos tanto pelo direito de ver nossa orientação sexual normalizada e muito recentemente conquistamos o direito de não sermos tratados como doentes, ainda encontremos tempo para zombar da normalização da vivência de alguém.

Dani e Kaíque relembram isso para finalizar a matéria. “É sempre importante lembrar que cada um vive o gênero da própria forma, Se gênero é uma construção, isso significa que as pessoas podem construir seu gênero de diferentes formas. Desde as mais gerais até as mais singulares. Não é porque uma pessoa não entende como a outra vive o próprio gênero que essa vivência é inválida”, explica Dani.

“Passada essa barreira de enxergar a gente como os humanos que somos, procurar informação pra não reproduzir esses mesmos preconceitos e se atentar a isso. Somos apenas pessoas tentando viver nossa vida, sabe? Não somos exóticos, diferentes, excêntricos ou nada do tipo, a gente só não se identifica com o que tá pautado como norma e tá tudo bem não estar. Tudo que a gente quer é respeito”, conclui Kaíque.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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