LGBTIs com deficiência relatam experiência de rejeição na comunidade

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Parada LGBTI de São Paulo só teve área reservada para pessoas com deficiência a partir de 2017. Foto: Prefeitura de São Paulo

De acordo com dados do IBGE publicados em 2019, cerca de 45 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência. Infelizmente, o mesmo instituto não faz levantamentos capazes de identificar ou que permitam que se cruze dados para que seja possível saber quantas dessas pessoas são LGBTI. Mas não é apenas falta de estudos que deixa essa parte da população invisível.

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Curta, impactante e premiada, a série Special da Netflix funcionou como um despertar para muita gente que sequer tinha imaginado como seria a realidade de uma pessoa LGBTI com deficiência. Com uma segunda temporada já filmada, a trama explora a vivência de alguém com paralisia cerebral leve passando por relacionamentos, independência, sexualidade e outros “dramas” que existem na vida real como a infantilização e falta de afeto por conta da condição.

“Logo no início da minha adolescência eu já sabia da minha sexualidade, mas eu acreditava que por eu ser uma pessoa com deficiência eu não podia ter mais um ‘problema’. Então eu passei muito tempo tentando reprimir minha sexualidade de alguma maneira. Além disso tinha o fato da pessoa com deficiência ser vista como criança, o que também atrapalhou e atrasou bastante minhas descobertas”, diz a professora e microempreendedora Anna Rezende, que é uma mulher bissexual com paralisia cerebral e anda com auxílio de muletas.

Também durante a adolescência, o arquiteto e design de interiores Renato Augusto Gonpeau, que hoje se identifica como um homem gay, começou a experimentar as primeiras rejeições por conta da Deformidade de Sprengel e algumas outras deficiências. Ele chegou a ouvir de um interesse amoroso que nunca ficaria com alguém como ele, além de, mais tarde, ter sido alvo de bullying por conta dos trejeitos afeminados.

“Na época fiquei bastante envergonhado e não tive como contra
argumentar, mesmo tão jovem já tinha entendido que eu nunca seria amado a não ser por amores típicos de familiares e de amizades. Por volta dos 17 anos, conheci um cara numa sala de bate-papo e tive minha primeira relação sexual. Não rolou um papo, quase não teve contato físico e não rolou beijo. Foi um sexo em tempo recorde que me deixou traumatizado, por eu ter notado indícios de nojo”.

As rejeições, no entanto, não ficam apenas na adolescência. Ainda na vida adulta, pessoas com deficiência tem dificuldades de se relacionar amorosa e sexualmente, além de terem que enfrentar algumas perguntas que mesmo de forma discreta demonstram algum nível de preconceito e desinformação.

“No começo, quando comecei ter uma vida social e sexualmente ativa tive que lidar com perguntas sem noção do tipo ‘você consegue transar?’ ou ‘Seu pau funciona?’. Eu sei que as pessoas vão ter curiosidade e algumas vão ser indelicadas. Antes eu ficava chateado, hoje se vier um sem noção finjo que não vi e sigo o bonde, quando vejo que a pessoa está sendo delicada ao perguntar eu respondo de boa”, argumenta o estudante Arthur Oliveira.

Ele também diz que o tema sexo parece ser um grande tabu para pessoas sem nenhuma deficiência. “Parece que perante a sociedade quando você fala de sexo e PcD as duas coisas não conversam e quando uma PcD fala abertamente sobre sexo ela é visto como um ET e as pessoas ficam chocadas”.

Redes sociais e eventos LGBTI

Um dos maiores recursos para se conhecer pessoas na atualidade, as redes sociais servem como refugio, mas nem sempre são um ambiente seguro para pessoas LGBTI com deficiência. Mesmo nas redes mais específicas e voltadas apenas para sexo há bastante rejeição.

“Anos atrás criei uma conta no Manhunt e lá recebi muitos ataques ofensivos dizendo que aquele lugar não me pertencia e que nunca conseguiria alguém por conta da minha deficiência. Também recebia mensagens desejando sorte para arrumar um companheiro sendo que os próprios poderiam ter me dado essa oportunidade”, relembra Renato.

Por outro lado, a tela, seja do celular ou do computador, ajuda a deixar algumas pessoas mais a vontade. “As redes sociais são onde eu me sinto mais segura para paquerar. Mas eu sempre deixo avisado para a outra pessoa que eu tenho uma deficiência, porque tenho medo de ser rejeitada em um encontro presencial”, explica Anna.

Sobre eventos e acolhimento da comunidade LGBTI como um todo, nossos três entrevistados tem a mesma opinião: ainda há muito para se avançar nesses campos.

“Nós deficientes LGBTs não somos vistos e nem notados pela comunidade. A parada de São Paulo não têm acessibilidade nenhuma. Os nossos corpos são invisíveis porque por mais que a comunidade fale que luta contra o padrão, isso não é verdade”, defende Arthur.

Renato ainda acrescenta que negros, gordos e pessoas com deficiência são colocados para escanteio, subestimados intelectualmente e que o “maior estigma é acharem que o corpo de uma PcD não ama e vivemos com esse
bombardeio reforçado diariamente com negação constante em diversos grupos”, pontua Renato.

O argumento, inclusive, foi um dos pontos de partida para o desenvolvimento de Special, série que citamos no começo do texto, baseado no livro I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (2015) de Ryan O’Connel. O autor já disse em diversas entrevistas que faltam histórias de PcD e que elas precisam ser contadas.

Seja por mais espaço em programas de TV ou por reportagens como essa, Anna parece ter mais esperança quando o assunto é acolhimento. “O capacitismo (preconceito contra pessoa com deficiência) existe dentro e fora da comunidade LGBT+. Nós, PcD, estamos começando a ganhar espaço na comunidade LGBT+ agora, já temos mais pessoas falando sobre isso. Ainda não dá para dizer que me sinto acolhida, mas estamos caminhando para isso”.

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