“Já tinha começado meu tratamento hormonal na minha última cena”, diz ex-atriz pornô

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Embora já soubesse aos 6 anos que não era como os outros meninos, Sarah começou a transição um pouco mais tarde do que gostaria. Hoje mais focada em outra carreira, ela ganhou notoriedade no mercado adulto nacional por filmes gravados na produtora MeninosOnline. A empresa, inclusive, lançou no começo do mês uma das cenas deixadas por Ella Sarah antes de parar de gravar.

Em entrevista exclusiva para o Dentro Do Meio, Ella revelou que não se sente desconfortável em ver fotos de antes da transição. O assunto é delicado para boa parte da população trans, que muitas vezes prefere excluir e não divulgar determinado período da vida, mas para a cabeleireira faz parte de todo processo e por isso ela mantem todas as fotos nas redes sociais.

Confira agora as respostas de Ella sobre a nova fase da vida, como a transição foi recepcionada por quem acompanhava a carreira no pornô e o que mudou agora que ela é uma mulher.

Dentro Do Meio: Como e quando começou sua carreira no mercado adulto?
Sarah: Comecei aos 19 anos através de uma casa prive que abrigava meninos e meninas trans. Meu último trabalho foi antes da pandemia e eu havia começado meu tratamento hormonal.

Dentro Do Meio: Quando você se entendeu como uma pessoa trans?
Sarah: Aos 6 anos de idade, no pré-escolar, eu já sabia que não me parecia com um menino. Aos 18 quase virei travesti, pois na época não se falava mulher trans. As faltas de oportunidade na época e as mudanças radicais no corpo me assustaram [e acabei desistindo]. Outubro de 2018 entendi que sou trans, mas segurei até carnaval de 2019 para me assumir para todos.

Dentro Do Meio: Recebeu convites para continuar gravando?
Sarah: Não. Até hoje não recebi nenhum convite para gravar depois da transição e acho que não me encaixo mais no perfil. Desde que me entendi trans tudo mudou. Sou uma pessoa totalmente diferente agora, não só fisicamente mas também a forma como lido com a sexualidade. A forma como lido com meu corpo não é mais a mesma. Estou me redescobrindo sexualmente e me incomoda o fato de nós, trans e travestis, sermos tachadas como um objeto de fetiche. Sou muito mais que um órgão genial. Órgão esse que não faz parte do corpo que idealizo como mulher. [Se fosse convidada] jamais aceitaria. Não faz mais parte da personalidade que tenho hoje. Meus valores e objetivos são outros.

Dentro Do Meio: Mas ainda têm contato com os antigos colegas? Foi apoiada na transição?
Sarah: Sim, ainda tenho contato com algumas pessoas, mas acabei fazendo outros amigos fora do pornô.

Dentro Do Meio: Como foi a recepção de quem te acompanhava seus filmes?
Sarah: Houve uma certe estranheza. Hoje mesmo um internauta me disse que estava confuso, pois tinha acabado de ver o lançamento de um filme meu de menino e com o cabelo raspado. Mas discriminação direta ainda não rolou. Alguns lamentaram, outros aplaudiram minha coragem e me incentivam.

Dentro Do Meio: Você sente que era mais discriminada no pornô ou como mulher trans?
Sarah: Sinceramente, na nossa comunidade, me senti discriminada nos dois.

Dentro Do Meio: Hoje, embora use a #blogger, seu perfil no Instagram é privado. Pq escolheu bloqueá-lo para quem não te segue?
Sarah: Comecei a usar a #blogger porque queria falar da transição e autoestima, mas depois fui aconselhada a bloquear por medo de alguma retaliação ou que alguém pudesse me expor de forma negativa.

Dentro Do Meio: Infelizmente, o Brasil é o país que mais mata trans no mundo. Você mudou sua rotina ou se sente mais insegura agora que se entende como mulher?
Sarah: Sinceramente, não mudei em nada. Sei que moramos em um país violento, mas não alimento esse medo pois seria como continuar a viver em uma prisão. Já vivi assim antes de me assumir. Mantenho minha cabeça erguida e confiante em Deus. Sou feliz com quem sou hoje. Isso me dá força para andar livre e sem medo.

Dentro Do Meio: Você trabalha com beleza há bastante tempo. Quais são suas ambições profissionais nessa nova fase da sua vida?
Sarah: Na verdade foi isso que mudou. Sou cabeleireira desde meus 20 anos, mas hoje formada em colorometria e estou em sociedade em um salão pequeno. Meus objetivos são ampliar o salão, me especializar em outras áreas da beleza como podologia, designer de sobrancelhas e crescer ainda mais na profissão que me encontrei.

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Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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