Homens trans buscam espaço longe da fetichização e rejeição de gays cis

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Foto: Chalffy / Getty Imagens

Não é incomum encontrar histórias de trans masculinos que sofrem rejeição, seja de homens cis gays ou de mulheres cis hétero, por não terem um pênis. Por outro lado, também tem sido crescente a parcela de cisgêneros que tem colocado transexuais numa categoria de “curiosidade” e fetichização.

Não há um exemplo tão emblemático quando se trata da “curiosidade”, mas uma rápida pesquisa usando as palavras-chave “homem trans curiosidade” no twitter deixa claro que, além de não serem poucos os casos, trans masculinos não se sentem muito confortáveis quando são tratados apenas como um mistério a ser desvendado.

“Esse tipo de abordagem é mais comum do que pensam, ainda mais em rede social onde as pessoas criam uma coragem absurda. Nas primeiras vezes em que isso me ocorreu eu fingi que não li”, conta Stefan Costa, bacharel em direito, criador de conteúdo e responsável pelo canal Trans Boy Life.

Ele ainda acrescentou que, hoje, mais maduro, não deixa esses comentários passarem. A opinião é compartilhada pelo relações públicas, designer e comunicador visual Kaléu Menezes. “Minha reação [quando me abordam falando de curiosidade] é fazer a pessoa se sentir envergonhada pela fala fetichista”.

Como exemplo da rejeição enfrentada, temos uma situação causada pelo streamer Luba que, há alguns meses atrás, teve o nome entre os assuntos mais comentados do Twitter por associar “ser gay” a “gostar de rola”. Embora várias pessoas tenham apontado que existem homens com vagina e mulheres com pênis, o youtuber se mostrou irredutível no argumento de que ele era gay por “gostar de chupar pinto”. Houve quem o defendesse usando a carta do “questão de gosto” ou apontasse que homossexuais passivos podem não se sentir plenamente satisfeitos ao ter relações com trans masculinos.

“A sociedade num todo foi estruturada para que as pessoas pudessem pensar que o homem só se faz homem por causa do seu órgão sexual, o que torna tudo muito genitalista e isso reflete diretamente no meio LGBTQIA+ quando se depara com alguns homens cis gays sendo transfóbicos por causa de um órgão”, pontua Stefan.

Para Kaléu, o argumento de que homens trans não conseguiriam dar prazer numa relação sexual com gays passivos é absurdo. “Acho um argumento extremamente sexista e falocentrico, em vista que a realização completa dentro de uma relação sexual vai muito além da genitália”.

Falando em sexo, mesmo que de forma tímida, a presença de homens trans está começando a ficar mais frequente em produções de filmes adultos. Não há como saber se isso acontece por uma preocupação das produtoras com a diversidade ou se o foco é explorar a “curiosidade” apontada por cisgênero, fato é que a demanda existe e até já possível encontrar cenas de produtoras nacionais com trans masculinos ou mesmo cenas amadoras pensadas para OnlyFans.

Questionados sobre essa representatividade e se ela teria relação direta com a fetichização de corpos trans, nossos entrevistados foram enfáticos ao apontar que envolvendo ou não pessoas transgênero, o mercado adulto tende a sempre trabalhar com hipersexualização.

“Todo e qualquer tipo de filme pornográfico agrava ainda mais a fetichizaçao de um corpo, o brasil é o pais que mais consome pornografia trans e o pais que mais mata pessoas trans, a divergência vem em decorrência de que querem o corpo trans apenas para sexo e prazer”, pontua Káleu.

“No pornô essas pessoas têm a oportunidade de saciar suas curiosidades sobre os nossos corpos e é aí que entra a fetichização. Porque a partir do momento em que a pessoas que está assistindo começa a ter desejos por aquele corpo trans automaticamente começa a repudiar esse desejo e transformá-lo em raiva e ódio. O que muitas vezes acaba ultrapassando a tela do computador pois esse indivíduo vai às ruas satisfazer seus desejos e curiosidades no sigilo, mas para sociedade destila transfobia”, finaliza Stefan.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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