Sexo pig e Scat: existem limites para o prazer?

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Foto: Divulgação/Gustavo Scat

Gustavo conheceu as revistas pornôs na infância. A primeira vez em que sentiu tesão foi enquanto folheava as páginas de uma, sentado no vaso sanitário. Para ele, essa experiência cravou no seu subconsciente uma proximidade entre prazer e fezes. Mas a confirmação sobre o seu fetiche viria somente em 2007, ao assistir o vídeo viral 2 Girls 1 Cup, onde duas mulheres exploram o prazer sexual com xixi, cocô e vômito. Hoje, Gustavo assumiu uma identidade na qual o fetiche virou sobrenome, e é responsável por administrar um portal que compartilha fotos, vídeos e relatos do universo scat.

“[O 2 Girls 1 Cup] é o vídeo de scat mais famoso do mundo. Confesso que não foi amor à primeira vista, inclusive pela parte do vômito, que não curto. Mas a curiosidade e o tesão me despertaram algo muito além do nojo. Anos depois, descobri os significados dos fetiches e suas siglas. Conheci a chuva dourada também, a difícil batalha de achar conteúdo com qualidade, os desafios de me masturbar e conhecer o próprio corpo incluindo scat, experimentar o gosto do cocô pela primeira vez e sentir culpa depois, além das intermináveis e quase impossíveis buscas por parceiras. Tudo um pouco frustrante e confuso, por parecer estar sozinho neste mundo”, conta Gustavo Scat.

Com 26 anos e assumidamente bissexual, Gustavo é o responsável pelo blog Quero Scat, que reúne práticas sexuais por pessoas heterossexuais e LGBTIs. “Pra mim, o charme é a contradição da pessoa desinibida, divertida, carinhosa e até fofinha, mas que curte cocô. Esse contraste de pessoa meiga e pervertida para curtir umas putarias é o que dá todo o tesão. Ser cabeça aberta para tudo, ter desejo nato por sexo sujo e aquele toque de criatividade para infinitas possibilidades de desejos com cheiros, bosta, mijo, cuspe e peidos”, explica.

Ele defende que o universo scat vai além de comer cocô – e ri. “Eu não como! Tem gente que curte apenas algo mais soft como ver o cocô sair, ficar apenas observando alguém no banheiro, levar uma mijada na hora do banho, apenas ver vídeos, ou ainda quem curte a coisa mais extrema mesmo como passar no corpo e até ingerir. Vai de cada um”.

Entretanto, ele conta que o preconceito existe e é constante, mas viu no meio gay uma maior aceitação do seu fetiche. ”Os homens curtem e conhecem bem mais toda essa cultura do sexo pig do que as mulheres. Então, boa parte pelo menos respeita. E é esse o ponto. Fora do meio eu já ouvi as clássicas reações do tipo ‘Você é doente!’, ‘Você precisa se tratar’ ou ‘Isso é coisa do diabo!’. Algumas são até divertidas, mas descarto todas elas. Será que as pessoas que nos julgam de forma maldosa não têm também nenhum tipo de gosto sexual?”.

+ Vídeo: Há limites no fetiche?

Fetiches e tabus

Eduardo Peres é sexólogo, especializado em terapia afirmativa para pacientes GSRD, que são os diversos em gênero, sexualidade e relacionamentos. Criador do podcast Dominatrês, ele explica que o debate sobre scat começa com uma sociedade que não fala sobre sexo, e muito menos sobre fetiches.

“Fetiche é uma palavra que se popularizou para a gente falar das práticas sexuais não convencionais. E até esse termo de práticas sexuais não convencionais dentro dos estudos da sexualidade humana traz uma ideia bastante conservadora, envolvendo esse tabu de que quando a gente conversa sobre educação sexual, a ideia é de que o sexo só tem uma função reprodutiva. Então, o sexo normal ou sexo convencional, que é bem entre aspas, seria o sexo feito com uma pessoa com pênis e outra com vagina, na função de reprodução. Não conversar sobre o que é o sexo saudável, sobre o foco no corpo, na satisfação e no prazer, é um problema. E tem impacto nessa construção social do que o sexo representa”, detalha.

O especialista afirma que o fetiche envolve a atração por algo, que pode ser um objeto, algum tipo de cenário ou de situação. É uma parte lúdica do sexo, que desperta o desejo. “O fetiche não é única e simplesmente o BDSM, atração por pé ou algo extremo. O fetiche pode ser gostar de usar lingerie, por exemplo. Pode ser um cheiro, uma música, o fetiche envolve a fantasia no sexo. É saudável? Sim, com certeza. Mas quando o fetiche vira um problema? Quando a prática sexual fica dependente daquele fetiche. Então, a pessoa não consegue ter prazer, ter uma intimidade durante a prática sexual, se o fetiche não for ativado ou envolvido”.

Para Eduardo, no caso do scat –  e de outros fetiches –  o importante é a pessoa ter consciência do que está sendo exposta, e assim ter conhecimento de práticas saudáveis. “É muito importante a gente orientar dentro de comunidades fetichistas. Para quem gosta de violência, práticas de dominação, submissão e disciplina, bondage, scat, golden shower, etc. Nesse caso específico, você está se expondo a fluídos? Então é importante que você tenha um acompanhamento profissional para saber que não se pode ingerir esses fluidos, que dependendo da exposição de mucosa existe um risco de transmissão de infecção sexualmente transmissível (IST), de infecções bacterianas. Isso tudo envolve um trabalho de redução de danos, promoção de saúde e prevenção a possíveis riscos. O que deve ser abordado e conversado dentro da saúde sexual, mas não deve ser inibido. Porque a inibição é um dos grandes fatores da disfunção sexual. Socialmente já existe uma inibição com sexo, o sexo é um tabu, e quando a gente envolve um fator moral do sexo, essa culpa cristã em relação aos atos sexuais, principalmente aos não convencionais, a gente desenvolve um problema, um fator de angústia, de ansiedade”.

O sexólogo explicou que existem quatro pontos que caracterizam um sexo saudável: que seja feito entre humanos, com pessoas vivas, entre maiores de idade e, principalmente, que há um consentimento entre todos os envolvidos. O melhor sexo é o com o conhecimento de todos, e abordado abertamente. “Quando a gente fala de fetiche, a gente está falando das parafilias, das práticas sexuais não convencionais. E tem um jornalista americano chamado Dan Savage, que tem uma coluna sobre sexualidade, e deu uma palestra onde falou algo muito interessante: ‘todo mundo tem uma parafilia para chamar de sua’. Então, todo mundo tem um gosto não convencional. E não existe problema em ter gostos não convencionais, o problema está no tabu de não conversar sobre eles”, conclui.

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