“Falo de amor entre homens como forma de protesto”, defende Pedro Ferreira

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Foto: Ana Alexandrino

Em março o cantor Pedro Ferreira lançou o segundo álbum da carreira e o primeiro desde que conseguiu se sentir completamente a vontade na própria pele. Batizado de “Ele Era Eu”, o trabalho traz sete músicas, sendo seis escritas por ele e um cover. Todas são canções de amor e funcionam também como uma forma de protesto, já que para Pedro, falar sobre relacionamentos de pessoas do mesmo gênero num período em que temos um homofóbico no poder alcança um espaço muito intimo nas pessoas.

Na entrevista exclusiva, que aconteceu por vídeochamada pouco depois do lançamento, Pedro também revisitou uma parte turbulenta da carreira. Em 2019, durante uma turnê no exterior para divulgar o primeiro álbum, ele foi deixado de lado pela produtora que organizava os shows e chegou a cogitar não mais viajar para apresentar sua canções. O baque, no entanto, não fechou os olhos dele para próprios privilégios.

De Paris, Pedro Ferreira destacou que está refletindo sobre ter tido a chance de sair do país para estudar e trabalhar durante este período político tão delicado. Mesmo quando foi vítima de um episódio traumático envolvendo o batalhão de choque do Rio de Janeiro, em Laranjeiras, o cantor admitiu ser um homem branco namorando outro homem branco aliviou a situação que poderia ter terminado de forma trágica se negros estivessem no lugar deles.

Abaixo você confere um trecho da entrevista em vídeo, durante a edição mensal do Jornal Dentro Do Meio, e a integra do bate-papo com o cantor Pedro Ferreira.

Dentro Do Meio: Primeiro de tudo queria saber como é que tá a vida por aí em Paris? Há quanto tempo você está aí?

Pedro Ferreira: Eu vim para cá em setembro para fazer mestrado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, que é um mestrado entre artes, literatura e linguagem. O meu foco agora é mais na palavra e na linguística. Cheguei e a vida tem sido bem confusa porque tem confinamento, aí abre tudo… e eu acho que os franceses, às vezes, tem um descuido com o limite das coisas, sabe? É diferente do Brasil, enquanto no aí o presidente claramente sabe o que ele quer fazer, que é ir contra qualquer tipo de confinamento, aqui fica todo mundo em dúvida se as autoridades querem ou não querem, então fica aquele conflito.
Com relação a minha carreira, está influenciando muito na minha composição. Eu tentando achar o meu espaço aqui e, como também aconteceu quando eu fui para Coimbra, eu me forcei a pensar sobre o que é ser brasileiro. Estando de fora, eu vejo o conflito cultural que existe e isso me leva a outros questionamentos, que às vezes no Brasil, envolto pela minha cultura, eu entendo que é comum, mas eu chego aqui e me vejo com muitos conflitos.

Dentro Do Meio: Como começou sua relação com a música?

Pedro Ferreira: Começou quando eu era pequeno. Eu não tinha muito gosto pela música, era um gosto que qualquer pessoa diria que é natural e veio por conta dos meus pais. Na verdade eu impulsionei esse meu gosto pela música com a morte do pai quando eu tinha 11 anos, em 2007, aí eu me aproximei da composição. Antes disso, era mais pegar algumas coisas de ouvido, entender algumas canções e cantar em coral infantil… Essas coisas me formaram, mas parece que estavam preparando o ambiente para eu me aproximar da música.
Em 2007, eu tive esse baque emocional e foi um momento que eu comecei a me aproximar da expressão musical, não só das notas, não só da melodia, mas da expressão enquanto forma de processar o mundo. Aí até lançar o meu primeiro álbum, o Ária Noturna, eu entrei num processo de ir me entendendo enquanto adolescente e vivendo enquanto um rapaz que tava se entendendo enquanto um homem gay, mas eu não conseguia falar sobre as coisas que eu queria falar, então eu buscava certos subterfúgios para dizer as coisas que eu queria dizer na composição, mas não tinha coragem de escrever em português, então eu escrevia em inglês.

Dentro Do Meio: É mais fácil compor em inglês? Há uma música que você mistura os idiomas, certo?

Pedro Ferreira: No começo era, mas eu acho que… Eu já ouvi algumas pessoas falarem que o inglês tem mais musicalidade e as rimas são fáceis, mas para mim não era isso. Eu compunha em inglês para conseguir falar as coisas sem ter que colocar a cara a tapa. Quando eu falava na minha própria língua era mais pesado, quando a gente fala o bom português e diz o que a gente quer dizer na nossa língua é diferente.
Tem duas canções em Ária que tem isso, a The Lovers, que é toda em inglês e a Hoje Vou Te Contar, que é inspirada pelo Transa do Caetano. Quando eu fui fazer a Hoje Eu Vou Te Contar, pensei “eu preciso escrever na língua mãe as coisas que eu tô querendo dizer com sinceridade”. E ali já era uma canção gay, só que não assumia isso na minha cabeça e preferia deixar passar.

Dentro Do Meio: A música de ajudou no processo de autoaceitação?

Pedro: Ferreira: Sim e foi um processo longo que começou no Ária. Teve uma vez numa rádio de Sesimbra, em Portugal, que me pediram para falar sobre a história de uma das canções. Aí imagina, eu com 19 anos numa rádio, que eu não sabia que tava ao vivo e fui fazer achando que ia ser gravado e do nada eu vi tava ao vivo…
DDM: Inclusive, agora estamos ao vivo também… brincadeira!
Pedro: Que susto! Mas voltando, quando eu cheguei para dar essa entrevista foi uma loucura, eu não tocava no gênero da pessoa, não falava nada e eu sentia que tava me traindo e traindo meu sentimento, sentia que estava levando uma vida dupla e ia ter que viver essa vida para sempre, mas aos poucos eu fui quebrando isso.
A turnê que fui fazer em Portugal só aconteceu até a metade, depois disso deu tudo errado, a produtora meio que me largou e eu fiquei num limbo. Quando eu voltei para o Brasil, eu estava meio quebrado e pensando que não conseguiria mais cantar e fazer turnê, pensava que não dava para me arriscar mais nesse sentido.
Depois, quando eu voltei para Coimbra, foi bem simbólico porque foi lá que eu fiz o último show com consciência que eu estava fazendo um show, antes de desandar tudo. Nessa volta, em 2019, eu fui um semestre de desigualdade, movimentos artísticos e políticas, mas quando cheguei lá tinha um curso com a Adriana Calcanhoto e foi daí que as coisas começaram a mudar.
Neste curso, teve uma aula em que ela pediu para que eu escrevesse uma canção sobre mim, mas sem usar a palavra eu. Esse era o processo virou a mesa porque se no Ária eu fazia uma espécie de crônica, agora eu tava falando de mim, com canções falando profundamente de mim e sem nenhum medo. Eu pensava, “cara o que é que pega na minha carne nesse momento?” e era a sexualidade dentro do trabalho artístico. E aí as coisas viraram completamente.

DDM: Como é seu processo de composição e como você acha que suas letras contribuem para representatividade?
Pedro: Essa pergunta é profunda. Eu odeio usar esse termo, mas eu tinha me assumido apenas para núcleo muito próximo da minha família e quando eu escrevi É Tão Difícil Amar Um Homem, eu sabia que na hora que eu colocasse no ar não ia ter dúvida de nada, até porque não há como ter dúvidas de uma canção com esse nome.
E a composição desta música começou com um exercício proposto pela Adriana Calcanhoto, que pediu uma música de protesto. Eu me lembrei de uma situação específica que tinha passando com meu namorado em 2018, em Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro, que a gente sabe que é uma das regiões mais ricas e seguras do Rio de Janeiro.
Estávamos voltando de uma festa para a casa do meu namorado e passou um carro do batalhão de choque com fuzis para fora gritando “Bolsonaro 2018”. Isso foi no primeiro semestre daquele ano, mas lembro que quando isso aconteceu, eu me afastei dele por preservação a nossa vida e na minha cabeça estava “o que está acontecendo???”.
Com essa situação em mente, eu compus essa canção como uma canção de protesto. Eu lembro que eu conversei com Adriana porque eu não tinha piano e ela me chamou assim que achou um. A primeira frase dessa canção era eu me entrego num beijo, mas eu mudei para eu me deserto porque ao mesmo tempo que eu posso estar completamente isolado do mundo por ser um homem gay, eu posso entender aquele beijo como um espaço onde eu me encontro por estar sozinho. E aí foi naquele ponto que começou todo esse trabalho de composição e cada canção veio muito naturalmente.
Eu estava fazendo um trabalho de antropologia para faculdade e eu não conseguia falar sobre outra coisa que não fosse sexualidade. Comecei a conversar com outros homens gays, ouvindo histórias muito parecidas umas com as outras. Na minha cabeça elas precisavam estar dentro de um mesmo trabalho estético e aí que eu fecho a resposta para essa pergunta, na representatividade. Eu tenho tentado, no meu trabalho e partir dos movimentos na vida real, pensar no que está acontecendo com as pessoas com quem eu tenho contato e eu posso escrever com autoridade. Suspeitas é a outro exemplo, eu tive contato com um professor que me contou como era ser gay nos anos 80 e me dei conta que ainda passo pelas mesmas coisas que ele passava. Como que não evoluiu essa porra? Claro que eu tô numa posição muito mais privilegiada, numa outra atmosfera e tenho noção disso, mas existem coisas que a gente ainda passa e são semelhantes, eu só conseguia pensar nisso quando comecei a escrever. E eu acho que a representatividade tá aí, no momento em que eu percebo que é o que é tão particular e meu, não é tão particular e representa todo mundo.

DDM: Aproveitando essa questão política que você acabou trazendo e tentando colocar pandemia de lado, qual importância de lançar um álbum falando sobre amor entre homens num período em que a gente tem um cara na presidência que disse que se vir dois caras se beijando na rua ia descer a porrada e outras coisas absurdas que ele diz?
Pedro: Primeiro, eu acho que ter esse tipo de ser na presidência da república é um período passageiro, eu acho que o que fica é sempre o afeto. Eu tô aqui em Paris estudando um movimento específico que aconteceu nos anos 80. Esse movimento se chama movimento de arte pornô. O uso do corpo nesse movimento é o uso político através do afeto. Eles defende que um corpo ensanguentado não tem, na representação artística, tanta força quanto corpo de afeto e um corpo em que a sexualidade está exposta.
A sexualidade é uma arma de residência extremamente forte porque ela atinge na gente o que a gente tem de impulso. Escrever esse álbum para mim foi um processo na linguagem em que eu entendo que eu chego nas pessoas e eu ataco num lugar em que o Jair Bolsonaro e tantos outros que seguem ele nunca vão conseguir chegar. Porque é um lugar que essas pessoas também têm e um espaço que essas pessoas também têm.
Fazer uma canção de amor é, ao mesmo tempo, a coisa mais universal que existe e também a coisa mais específica que existe, então, lançá-lo neste momento é estar de frente com o caos e atacá-lo por outro espaço, um espaço que ele não consegue ver. É muito difícil, mas ao mesmo tempo eu acho que é como eu canto em É Tão Difícil Amar um Homem, é “expor os ossos” e mostrar humanidade para além dos absurdos que essa gente fala.
Tem um autor e compositor norte-americano chamado Silvio Rodríguez, as músicas dele são muito políticas e uma amiga minha me mostrou uma chamada Te Doy una Canción, que em um verso diz “te dou uma canção com as mesmas mãos que matam, uma canção com as mesmas mãos que ferem, as mesmas mãos que escrevem livros, como um livro e como uma palavra como se fala o amor”, então das mesmas mãos que as pessoas querem fazer com que exista agressividade, eu quero mostrar que ao mesmo tempo que eu posso ser firme, político e direto, eu tô falando sobre algo que essas pessoas vão ouvir e, se elas tiverem inteligência e calma de entender, vão percebendo do que eu tô falando de verdade e entender que também se sentem assim em alguns aspectos.

DDM: Seu estilo musical está um pouco mais afastado da música pop que a maior comunidade costuma consumir. Como é para você ter esse lançamento em outras vertentes musicais?
Pedro: É ocupar espaços, né? Tava falando com o Artur Nogueira, que é outro compositor incrível, e a gente tava falando essa semana sobre isso. Eu olho para o espaço e para o que a gente é capaz de fazer e tenho certeza que a gente tem direito de ocupar todos espaços falando sobre nossos amores. Assim como Eu Sei que Vou Te Amar tá aí e está longe de ser uma música do estilo pop que a gente conhece. E ela poderia ter sido escrita falando sobre amor entre homens ou poderia ser um amor lésbico e poderia ter sido qualquer coisa. É importante que existam canções neste espaços. Não precisa ser o pop como a gente consome. Mesmo sendo muito importante ter essa representação no pop, principalmente.
Mas ocupar os espaços significa não só estar numa categoria específica, mas sim disseminar e mostrar como é normal, como é bom e é interessante ter diversidade de eu cantar de um eu lírico masculino para um eu lírico masculino. Eu fico muito grato e muito feliz quando eu vejo pessoas, que não necessariamente são gays, cantando as minhas músicas e usando o eu lírico na forma como eu escrevi como se estivesse falando para um homem também.

DDM: Falando sobre diversidade, publicamos uma matéria sobre o dossiê A Cor Do Invível que em algum momento aborda a diferença entre as pautas de homens gays brancos, homens gays negros e mulheres trans. Você falou um pouco sobre sua vivência, de já ter vivido em outros países e, inclusive, estar atualmente falando comigo de Paris. Acredita que suas canções conseguem dialogar com outras pessoas da comunidade que não sejam homens gays brancos?
Pedro: Eu entendo que minha música esta dentro de um espaço que pode ser visto e observado por gays negros e homens trans gays, mas claramente vai ser diferente. Eu tenho um pouco de dificuldade, Renan, sendo bem sincero, eu tenho um pouco dificuldade de assumir, e eu não acho e nem quero assumir um discurso que não é o da minha vida. Quando aconteceu a situação que levou a música É Tão Difícil Amar Um Homem, a primeira coisa que eu e o meu namorado pensamos foi “bom, a gente tá nessa situação em que a gente foi agredido dessa maneira, mas se nós fossemos dois homens negros a gente não sabe a gente estaria vivo”.
Então, é muito difícil responder essa pergunta. Depois que esse álbum me fez observar a minha vivência enquanto um homem gay, eu tô observando minha vivência enquanto gay, homem, branco e vivendo fora do país, que é um dos maiores privilégios que há entre a nossa comunidade. O que eu posso fazer e o que eu acho que eu tenho que fazer é me aproximar das pessoas, entendeu?
Fazer com que outros artistas e outros homens gays que são artistas, possam ter a visibilidade que eu estou tendo, que eu estou conseguindo. Do que estou aprendendo, esse é o primeiro passo que eu consigo dar. O resto, eu ainda estou aprendendo e mantendo sempre aberto. Mas obrigado pela pergunta, é importante e me bota para pensar.

DDM: Vamos voltar ao seu álbum mais recente. São sete músicas e em algumas delas você canta com Eduardo Rangel, Matheus Fonseca e Eduardo Cabral. Como surgiu o convite para gravar e compor com eles num álbum tão autoral e com situações tão específicas como você contou agora?
Pedro: É muito libertador que tenham sido essas pessoas. Eles não apareceram por convites, eles foram aparecendo desde quando eu voltei de Coimbra em 2018, naquela turnê que aconteceu aquilo tudo.
Rangel e Cabral estudavam comigo, então a gente já tinha um contato. Eu fiz questão que eles estivessem presentes e cantando nessas duas músicas por causa do começo e do que aconteceu, a gente começou a trabalhar em É Difícil Amar Um Homem lá em casa com muito cuidado, então foi todo um trabalho que foi construído junto e eles assinaram o arranjo desde o zero.
Quando a gente foi para o estúdio, onde o Diogo trabalha, que é o estúdio A Casa, a gente ficou tudo livre, o Diogo nos deixou muito livre e daí o Cabral levou o violino, a gente foi gravando e as coisas iam fluindo. Comecei a perceber que acima de tudo, o que era mais importante para mim, é que nada do que eu tinha planejado foi mudado. Isso me dava muita liberdade.
As negociações ficaram mais na questão do arranjo e das melodias. Mas nas letras, não. Eles entendiam o quão importante e pessoal era aquilo. No final das contas, o que aconteceu foi que a gente foi entendendo que a produção era de todo mundo e depois que tava tudo pronto a gente foi designando quem estava compondo o que, mas só depois. Foi muito fácil trabalhar com eles. Eu até agora tenho tido esse prazer de ter pessoas que me deixaram muito à vontade e muito leve para trabalhar.

DDM: O álbum saiu agora em março, bem recente, mas você já está pensando em trabalhar com clipes neste projeto ou desenvolvendo algum outro? O que você vê como próximos passos para sua carreira?
Pedro: Eu e o Arthur estamos conversando para fazer algumas coisas juntos tendo o Ele Era Eu como fio condutor. Com relação à clipe eu tô pensando em algumas coisas, mas como eu tô aqui, como a gente tá nessa pandemia e com tudo que tá acontecendo, tudo muito rápido…
Não posso deixar de mencionar que nesse trabalho eu tive contato com Zé Pedro, que é o dono da Joia Moderna, a gravadora que lançou o disco, e ele botou uma coisa na minha cabeça que antes eu tinha muito incipiente. O “bora produzir, bora fazer coisas”. A faixa final do álbum é uma sugestão dele, o cover da Duda Beat, Todo Carinho. Todo esse processo veio pelo Zé Pedro falando “bora fazer isso, bora fazer aquilo”. Então eu tenho certeza que tendo contato com ele a gente vai continuar nesse ritmo e nesse processo para o álbum.

DDM: Você teme ficar marcado como o cantor de É Difícil Amar Um Homem ou estigmatizado como alguém que só fala de amor entre homens?
Pedro: Eu não tenho muito essa parada, não. Eu acho que por mais que o Ele Era Eu represente essa temática e esse momento da minha vida, eu vejo mais como incursões, como se fosse alguém escrevendo um livro. Eu posso sim ficar marcado, mas isso foge do meu controle e eu não posso controlar o que as pessoas pensam e eu nem me importo muito com que pensam.

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Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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