Divine: a drag queen que pregava a obscenidade como estilo de vida e que marcou a história do underground

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Drag Queen Divine

Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

Em um dos takes mais clássicos de “Pink Flamingos” (1972), o infâme filme de John Waters, Divine é a estrela de uma coletiva de imprensa. Rodeada por jornalistas, microfones e câmeras, ela diz com soberba: “Filth are my politics, filth is my life!”. “Filth” pode ser traduzido como a imoralidade, a obscenidade, o que é sujo, podre, o lixo. Há um tom jocoso, debochado em como Waters coloca essa frase na voz de Divine, em meio a um filme no qual ela compete com outra família pelo título de “pessoas mais podres do mundo”.

A imoralidade e a obscenidade eram os atos políticos da parceria Waters + Divine e isso durou até a morte precoce de Divine, aos 42 anos. Divine é Harris Glenn Milstead, ator, cantor e drag queen fundamental para a contra-cultura e para o underground norte-americano entre os anos 1960 e 1980. Em sua parceria com Waters, Divine estrelou clássicos como o citado “Pink Flamingos”, “Female Trouble” (1974), “Polyester” (1981) e “Hairspray” (1988).

Divine foi considerada pela revista People a drag queen do século XX e esse título não é para menos, já que a artista conseguiu manter uma carreira respeitada no underground e chegou a tatear o universo mais mainstream num mundo que nem sabia direito o que eram drag queens ou qualquer coisa do tipo. Mais que tudo isso: Divine marcou seu nome na cultura pop sem fazer concessões. Gorda, de atitude punk e com suas sobrancelhas marcadíssimas, a artista nunca era uma figura trivial ou que se passava de forma despercebida. Por isso mesmo, é interessantíssimo que ela tenha feito fama nos anos 80 fazendo papéis de mães de família no cinema, como em “Hairspray”.

“Hairspray” foi lançado três semanas antes de Divine falecer, porém esse seu último ato, digamos assim, mostra que talvez ela conseguisse, de algum modo, assumir outros espaços. O filme musical de John Waters foi um sucesso para além do mundo underground e se tornou musical na Brodway, tanto que ganhou versões ao redor do mundo e o longa até ganhou uma segunda versão, com John Travolta no papel de Edna Turnblad, que foi originalmente de Divine. Enfim, fica a questão: o que será que Divine faria após seu sucesso popular?

Com sua morte em meio ao sucesso do filme, conta-se que muitos artistas enviaram flores e coroas para o túmulo de Divine, mas a mais marcante é a de Whoopi Goldberg, com a frase-piada “Veja o que acontece quando você recebe boas críticas”. Com certeza Divine acharia essa piada de péssimo gosto e, por isso mesmo, amaria. Hoje em dia seu túmulo, em Maryland, nos Estados Unidos, ainda recebe muitas visitas e os fãs devotos amam acender cigarros e dar beijos cheios de batom sobre a sua lápide.

Musa da noite & do undergournd

Falamos sobre um possível sucesso mainstrem de Divine, porém não podemos esquecer que ela era musa underground e não deixou de ser “a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos”. Divine era habitué do Studio 54 – a lendária balada de Nova York – e é vista em fotos icônicas ao lado de estrelas como Andy Wahrol, Grace Jones, Mick Jagger e Karl Lagerfeld. No photoshoot mais maluco de todos, Grace Jones está numa moto, com uma galera sobre, Divine está no chão, elas comem bolo, uma dá bolo na boca da outra. Sabe-se lá o que rolou nessa noitada. (Aliás, vale acrescentar que as duas, Grace e Divine, quase participaram de Blade Runner!)

Divine, Grace Jones e amigos (Photo by Ron Galella/WireImage)

Além de ferver pela noite, Divine também fez uma bem-sucedida carreira como cantora disco no início dos anos 80, com hits babado que tem muito daquela energia ainda remanescente da disco music, mas que já conversavam com estéticas e possibilidades da nascente new wave. Ouçam “Shoot Your Shot” e “T-shirts and Thight Blue Jeans”, duas pérolas! John Waters, em entrevista ao jornalista Duda Leite, conta que, nos anos 80, devido a essa carreira musical, Divine veio algumas vezes ao Brasil para shows e performances, porém não encontramos relatos disso na internet (se alguém algum dia souber, se pronuncie). Waters apenas diz que Divine adorou o país.

Considerando que suas apresentações eram infâmes e famosas por cenas como ela entrando em uma parada gay sobre um grande bote inflável ou mesmo passeando em um show com um bebê elefante, sabe-se lá o que ela não aprontou pelo Brasil nos anos 80? Divine era essa drag queen obscena, suja, jocosa, que gostava de testar os limites do bom-gosto, do moralismo, da caretice e, por isso mesmo, é figura fundamental a ser sempre relembrada em nossos tempos. It’s fucking Divine!

Pequeno guia para conhecer mais de Divine:

  1. Assista seus filmes com John Waters. Se você é da linha mais pop, recomendamos que comece por “Hairspray” e “Polyester”. Agora se você é do tipo que não se choca com quase nada, vá logo com “Pink Flamingos” e “Female Trouble”.
  2. Ouça a compilação “The 12” Collection”, de Divine, no Spotify.
  3. O documentário “Eu sou Divine” (2013), de Jeffrey Schwarz, é um bom caminho para conhecer mais sobre a complexa história da artista.
  4. Temporada 7, Episódio 9 de “RuPaul’s Drag Race”, Divine Inspiration. Um ep com participação do John Waters e com homenagens à cenas icônicas de seus filmes.  

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Renan Guerra
Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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