Coronavírus escancara desigualdade à população LGBTI

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Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas

Viver com a possibilidade de morte a qualquer momento não é uma novidade para a população LGBTI. Entretanto, o coronavírus não chegou sozinho: o isolamento social e a recessão econômica abriram caminhos para novos cenários de violência à comunidade. A convivência obrigatória com pessoas que não reconhecem ou respeitam aspectos sexuais e de gênero intensificou diagnósticos mentais. Esta situação piora no recorte entre travestis e transexuais: o número de assassinatos contra este público nos oito primeiros meses de 2020 já superou todos os indicadores de 2019. 

“A população LGBTI já é conhecidamente um grupo que sofre com problemas de saúde mental, isso anteriormente à pandemia, por questões ligadas à não-aceitação social desse grupo”, explica Fernanda Fortes De Lena, pesquisadora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e do coletivo #VoteLGBT. “E com a pandemia, você vai ter situações de pessoas que não eram aceitas por suas famílias e logo saíram de casa, mas que acabaram tendo que voltar a esses lares que não são acolhedores, e isso vai afetar a saúde mental”.

Um estudo realizado pelo #VoteLGBT e pela agência de pesquisa Box1824 mapeou o impacto da pandemia à população LGBTI. Para 42% dos 10 mil entrevistados, a piora na saúde mental é o principal problema que estão lidando neste momento. Já para 17%, outro fator é a falta de renda. Uma em cada cinco pessoas LGBTI não possui nenhuma fonte de renda individual hoje, e uma em cada quatro pessoas perdeu o emprego por conta da covid-19.

Diretora do Grupo Dignidade, ONG dedicada ao amparo à população LGBTI em Curitiba, Rafaelly Wiest complementa as informações sobre cenário empregatício. “A maioria das pessoas LGBTI que são afetadas diretamente pela pandemia são trabalhadoras e trabalhadores informais, ou seja, trabalham em setores que foram diretamente atingidos com o coronavírus. Além disso, tem a questão relacionada com a prostituição. Nessa perspectiva, as pessoas que já sofriam muito com discriminação e violência tiveram que se sujeitar, muitas vezes, em trabalhar em locais [inapropriados] ou realizar serviços que, se não fosse a pandemia, dificilmente elas fariam”.

Para a pesquisadora Fernanda Fortes, a pandemia demonstrou o quão desigual a nossa sociedade é. “A gente faz uma metáfora relacionando com tempestade e jangada. A pandemia é uma tempestade, que está afetando todo mundo. Isso é uma verdade. Mas cada um, dado o seu privilégio anterior a essa tempestade, vai passar por ela de forma diferente. Então assim, se você tem condições mais privilegiadas de acesso, você vai estar dentro de um iate. Mas a gente sabe que os LGBTIs estão em barquinhos pequenos, tentando remar contra ela”.

Para população trans, burocracia e mortes

Foto: Leo Pinheiro / Fotos Públicas

De acordo com dados da Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais, de janeiro a agosto, o Brasil registrou 129 assassinatos de pessoas trans, um aumento de 70% no comparativo com o mesmo período no ano passado. Este número supera, inclusive, o total de assassinatos registrados em 2019, que foi de 124 pessoas. Vale destacar também que todas as 129 pessoas mortas neste ano eram travestis e/ou mulheres trans, e sua grande maioria eram pessoas pretas ou pardas. 

“Na realidade, o isolamento social, o afastamento físico das pessoas LGBTI, sempre existiu, a gente sempre viveu isso”, conta Indianare Siqueira, responsável pela coordenação da Casa Nem, entidade de acolhimento à população LGBTI no Rio de Janeiro. “Nós vivemos em um mundo que nos discrimina a todo momento. Não podemos estar em todos os espaços, demonstrar afeto em todos os espaços, ainda mais travestis e transexuais, que não conseguem transitar sequer para pegar um transporte público tranquilamente”. 

Segundo Indianare, a discriminação à população trans também aparece com a burocracia. “A questão do nome social impediu muitas pessoas de terem acesso ao auxílio emergencial. Seja por questões de documento, de fotos, uma série de motivos que eram alegados pelos bancos para não pagarem essas pessoas”.

Esse cenário também foi encontrado pela pesquisadora Fernanda Fortes, do coletivo #VoteLGBT. “A gente percebe que existe uma dificuldade de acesso aos benefícios que o Governo Federal tem disponibilizado por conta, principalmente, da população trans. Porque a política não foi desenhada e desenvolvida para incluir esse grupo, o governo não pensou que existiriam essas pessoas”.

Ausência de governo é proposital

Não é coincidência que todos os dados citados nessa reportagem não vieram de fontes governamentais. O motivo é simples: não existem monitoramentos de governos sobre a população LGBTI. Além do #VoteLGBT e da Antra, outro órgão independente que se destaca é o Grupo Gay da Bahia (GGB), que realiza há 40 anos relatórios anuais sobre o número de mortes da população LGBTI.

Humberto Souza, do Instituto Brasileiro de Diversidade Sexual (IBDSEX), explica que este movimento do Governo Federal é uma dupla omissão: não olhar para a população LGBTI é não mensurar essa população e, assim, não ter dados que justifiquem ações. “O Estado Brasileiro é omisso no levantamento de dados oficiais da população LGBTI, seja sobre seu perfil socioeconômico ou sobre casos mais graves, como o de assassinatos. A falta de informações oficiais que possam subsidiar a elaboração de políticas públicas para pessoas LGBTI é, sem dúvida, algo que precisa ser corrigido com urgência. Um processo que é retroalimentado pelo próprio Estado”.

Para os LGBTI que estão vivendo na pele os impactos da pandemia, Indianare Siqueira deixa um recado: fiquem unidos. “A solidariedade sempre foi e sempre será o nosso melhor remédio e a nossa melhor resposta em vários momentos. Não é um laço de sangue que nos faz família, mas é a convivência, é a relação com as pessoas que cria esse laço de pertencimento. Mesmo que você não conheça determinada pessoa LGBTI, ela faz parte da sua família, porque ela tem laços com você de sofrimento e de vivência que ninguém terá. Então, quando você encontrar uma pessoa LGBTI precisando de ajuda, estenda a mão, ou simplesmente esteja junto dela. Porque estar junto é o que nos ajuda a sobreviver e a passar por tudo isso”.

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