Como sites LGBT ajudam a sexualizar corpos negros

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É comemorado nesta sexta-feira (20) o Dia da Consciência Negra. No geral, a data, e todo mês de novembro, é usada para celebrar pessoas pretas e também para debater e escolher maneiras de enfrentar a desigualdade racial. Infelizmente, nesse quesitos portais LGBT brasileiros estão patinando e ajudando a sexualizar ainda mais corpos negros.

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Não há dados específicos sobre o número exato de pessoas LGBT no Brasil, tampouco um recorte sobre LGBTs negros, mas um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018 mostra que 55,8% da população se considera negra. Vale ressaltar que a pesquisa levou em consideração a percepção das pessoas e num país com dados alarmantes de racismo, não seria de se estranhar que pessoas negras se identifiquem como brancas.

A ausência de dados não permite afirmar, mas se nos basearmos que a maioria das pessoas no Brasil é negra, não é difícil deduzir que negros também são maioria entre os LGBTs. Por se tratar de uma população, teoricamente, mais inclusiva e desconstruída, é de se esperar um tratamento diferenciado da imprensa especializada, certo? Bem, não é o que acontece.

O Dentro do Meio conversou com quatro LGBTs negros para entender como portais comandados por membro da comunidade ajudam, mesmo sem intenção, a perpetuar mais racismo.

Da marginalização para a hipersexualização

Não é incomum que a imprensa brasileira dê tratamento diferenciado para negros e brancos. Isso fica ainda mais evidente nas coberturas sobre violência sejam os negros vítimas ou acusados. Quando se trata de alguns veículos LGBT brasileiros, o tratamento também muda e vai da marginalização para a hipersexualização.

André Siqueira e Fabiano Monteiro apontam hipersexualização e falocentrismo em portais LGBTI

“No geral, o negro é objetificado em matérias sobre corpo, pornô ou algo do gênero, raras vezes são mencionados em matérias sobre cultura ou música LGBT, por exemplo, exceto em novembro, né?”, argumenta o designer de joias Fabiano Monteiro, que também ressalta que já houve melhora no quesito inclusão, mas que ainda há muito a melhorar.

O Administrador de CRM André Siqueira acrescenta o falocentrimo na conta dos sites LGBTs brasileiros. “Deixei de acompanhar alguns por terem um viés gigante de gente branca, falas bem problemáticas e falocentrismo infinito”.

Destaques em sites comprovam racismo e sexualização

Uma rápida volta por sites LGBTI com anos de existência e bastante alcance nas redes sociais comprovam que mesmo quando a pauta não pede por “imagens mais explícitas”, por assim dizer, redatores escolhem evidenciar o corpo negro para chamar atenção e garantir os cliques.

Por outro lado, também dá para destacar manchetes com forte apelo sexual na qual os redatores escolhem ligar corpos negros a matéria e/ou negros que só são citados quando a pauta é sexo. Abaixo alguns exemplos.

Cara gente branca

Coincidência ou não, boa parte dos portais LGBTI brasileiros são comandados por pessoas brancas – o que talvez justifique a falta de tato no que se refere a reprodução de textos e recortes racistas. A ausência de pessoas negras em redações, inclusive, é sentida pelos leitores.

“Quando a gente pega notícias sobre pessoas pretas em sites liderados por LGBT brancos, a gente já sente a diferença na manchete. Às vezes eu sinto que a etnia é deixada de lado mesmo eles sabendo que essa vem antes da sexualidade”, pontua o analista químico Ramon Oliveira de Souza.

No geral, dificuldade de manter sites tão nichados e focados em pessoas LGBTs faz com que as equipes são extremamente enxutas. Por vezes, se abre mão de um jornalista, mesmo que ainda em formação, dando lugar para outros profissionais que “escrevem bem”. Mas nem todo negro concorda que as pautas negras são ignoradas.

Heitor Galdino acompanha sites LGBTI pelas redes sociais

“(Acho que as pautas) só não são a prioridade de quem escreve porque não fazem parte da vivência dele. Se eu não fosse socialmente discriminado pela cor da minha pele, provavelmente o casamento seria a primeira pauta que eu escreveria, por exemplo”, argumenta o documentador Heitor Galdino ao ser questionado sobre o apontamento feito no dossiê da Raça e Igualdade que diz, entre outras coisas, que enquanto negros buscam o direito a vida, boa parte da militância branca está preocupada apenas com o casamento igualitário.

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E tem como melhorar?

Seja por razões mais rasas, como o medo de cancelamento, ou por transformações estruturais na sociedade, o termo igualdade é constantemente usado nas redes sociais. Dito isso, é impossível não questionar se a abordagem de portais LGBT a população negra irá mudar.

A opinião dos nossos quatro entrevistados sobre isso diverge, embora seja uma unanimidade que a inclusão de negros nas redações solucionaria boa parte dos problemas.

“Até onde eu sei eles podem já ter mudado em alguns aspectos e eu não percebi, já que mal acompanho. Mas eu também imagino que uma mudança não se faz de uma hora pra outra e tem que ser mais do que só mudança pra inglês ver”, defende Siqueira.

Ramon Souza é cético sobre mudanças nos portais LGBTI

Galdino acrescenta que “falar de negritude envolve perder privilégios e aceitar que eles (donos de portais) também tem muitas questões raciais enraizadas” e isso precisa ser enfrentado para que exista uma possibilidade de mudança.

Já Ramon é mais cético. “Eu não boto muita fé nessa ‘inclusão’, pessoas não brancas sempre estão de fora ou estão lá apenas pra preencher a ‘cota’. Na prática isso não funciona”. Ele ainda ponta que para transformação teria que ser “tipo um Zorra Total, teria que ser refeito do começo”.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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