Cláudia Wonder: de cantora punk a ativista dos direitos LGBTQ+

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Claudia Wonder
Cláudia Wonder em foto de Claudia Guimarães

Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

Cláudia Wonder nasceu e cresceu em São Paulo, foi na noite da cidade que se tornou vocalista de banda punk, nome icônico nas noites do Madame Satã nos anos 80 e participou de filmes e peças de teatro. Morou na Europa, em diferentes países e nos anos 2000 se aventurou na música eletrônica. Foi colunista na G Magazine, lançou livro e trabalhou em diferentes frentes da militância LGBTQ+.

Cláudia foi muitas e múltipla em seus 55 anos de vida. Mas voltemos ao passado. Em entrevista publicada no jornal Pícaro, de Mogi das Cruzes, em outubro de 1986, ela explicava assim seus primeiros anos:

Antes de cair na vida artística, rodei bolsinha, mostrei a bundinha nas esquinas da cidade de São Paulo e até usei o pintinho para o consolo dos heterossexuais. Sai deste mundo rapidinho e, em 1978, fui morar na Europa, e residi na Holanda, Suíça e Itália, assimilando a cultura destes países aos que realmente me fizeram mulher. Em 1981, retornei ao Brasil. E aqui vou levando… A vida difícil de artista. Não quero ser homem nem mulher. Quero ser travesti.

Nesse retorno ao Brasil, Wonder voltou para o universo artístico e pode ser vista em alguns filmes da Boca do Lixo de São Paulo, já em sua fase decadente, quando da inserção do sexo explícito nos filmes. Ela, inclusive, participa de dois longas desse tipo, sob direção de Alfredo Sternheim, diretor gay que dirigiu importantes filmes nos anos 60 e 70 e que se tornou crítico de cinema em seus últimos anos de vida.

Imagem do doc “Meu Amigo Cláudia”, de Dácio Pinheiro

Na metade dos anos 80 passou a ser vocalista e compositora do grupo Jardim das Delícias, que tocava regularmente no Madame Satã, icônico bar de São Paulo e fundamental para o underground de São Paulo. O cenário era mais ou menos esse: um bar que mistura punks, góticos, skinheads e mais uma par de malucos, onde num palco você via um show do Ratos de Porão, daqui a pouco uma apresentação dos Inocentes e depois a Claudia Wonder em seu famoso “show na banheira”.

Não se deixe enganar: o show na banheira não tem nada a ver com outras banheiras lá dos anos 90. Aqui Cláudia Wonder ficava nua dentro de uma banheira, banhando-se em uma meleca de groselha que parecia sangue, enquanto cantava em som altíssimo as suas canções. Disso, só temos os relatos de quem viveu essa era. Uma espécie de mito das madrugadas paulistanas!

Depois do Jardim das Delícias, Claudia virou a frontwoman da banda Truque Sujo. Ainda de caráter punk, com esse trabalho ela conseguiu aparecer nos programas jovens e musicais da TV Cultura e angariou um bom respaldo da crítica musical. Infelizmente, não há nenhum disco oficialmente lançado dessa época, mas ainda assim há algumas áudios de gravações ao vivo que foram publicados no YouTube e uma apresentação de Cláudia no programa Boca Livre, da TV Cultura.

Abaixo um trechinho dela cantando “Jardim das Delícias”:

Passada a fase roqueira, ela passou uma temporada de 11 anos na Europa, entre shows artísticos e trabalhos em salões de beleza – Claudia também tinha formação técnica de cabeleireira e maquiadora. No início dos anos 2000, ela retorna ao Brasil e volta a trabalhar com arte e também em frentes de ativismo LGBTQ+. Ela trabalhou no Centro de Referência da Diversidade, no projeto “Cidade Inclusiva”, uma parceria da prefeitura da cidade de São Paulo com a União Europeia.

Além disso, foi colunista e repórter da revista G Magazine, tanto na edição impressa quanto no site. Seus textos buscam a reflexão sobre a presenta das transexuais e travestis na comunidade, visibilizando histórias diversas e outros pontos de vista. Alguns desses textos foram compilados e lançados em livro em 2008, sob o título “Olhares de Claudia Wonder: crônicas e outras histórias”.

No mundo da música, Claudia Wonder lançou, em 2007, um disco chamado “Funky Disco Fashion”, ao lado da banda The Laptop Boys. De bases eletrônicas, o disco tem aquele clima noite-paulistana-early-00s, com Wonder recitando as canções sob as batidas esfumaçadas. O trabalho se conecta bastante com o universo de gente como o NoPorn e o Montage, por isso mesmo vale redescobrir esse disco.

Em 2009, uma ano antes do falecimento de Wonder, sua história ganhou as telas no excelente documentário “Meu Amigo Cláudia”, de Dácio Pinheiro. O título vem de uma bela crônica escrita por Caio Fernando Abreu ainda nos anos 80 sobre Cláudia. Vale ir atrás do texto completo, mas aqui fica o trecho de abertura, um terno olhar sobre uma figura tão complexa e tão importante como Wonder:

Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível. A opinião alheia, então, torna-se detalhe desimportante. O que pode resultar – e geralmente resulta mesmo – numa enorme solidão. Dignidade é quando a solidão de ter escolhido ser, tão exatamente quanto possível, aquilo que se é dói muito menos do que ter escolhido a falsa não-solidão de ser o que não se é, apenas para não sofrer a rejeição tristíssima dos outros.

Pequeno guia para conhecer mais de Claudia Wonder:

  1. Ouça o disco “Funky Disco Fashion”, de Claudia Wonder e The Laptop Boys no Spotify. Atenção especial para “Travesti”, “Atendimento” e a uma versão babadeira de “Besame Mucho”.
  2. Assista ao documentário “Meu Amigo Cláudia” (2009), de Dácio Pinheiro. Disponível gratuitamente no MixBrasil Play.
  3. Ouça Rita Lee entrevistando Claudia Wonder nos anos 80, em seu programa Rádio Amador, na 89 FM. Disponível no YouTube.
  4. Assista ao doc “Temporada de Caça” (1988), de Rita Moreira, sobre os assassinatos de pessoas LGBTQ+ nos anos 80. Wonder é uma das entrevistadas. Disponível no YouTube.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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