Cassandra Rios: a escritora lésbica que bateu de frente com a ditadura militar

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Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

Cassandra Rios foi uma escritora conhecida por muitos epítetos: “papisa da homossexualidade”, “a autora mais proibida do Brasil”, “a escritora mais censurada da ditadura militar”, “a primeira escritora brasileira a vender 1 milhão de exemplares”. Todos eles fazem algum sentido para explicar esse quebra-cabeças complexo que foi a carreira da paulistana.

Nascida em 1932 com o nome Odete Rios, a escritora cresceu em Perdizes, bairro classe média alta de São Paulo. Ela assumiu o pseudônimo Cassandra ainda na adolescência, quando lançou seu primeiro livro, A Volúpia do Pecado, aos 16 anos, em 1948. Seu livro de estreia apresentava um romance entre duas adolescentes, delimitando aqueles que seriam os arcos temáticos de sua carreira: o amor e o sexo entre mulheres.

A Volúpia do Pecado foi publicado de forma independente, com o auxílio da família de Cassandra, pois diferentes editoras se negaram a distribuir a obra. De todo modo, o boca a boca levou o livro a se tornar um sucesso e a alavancar a carreira da jovem escritora. A partir dali, Cassandra escreveria mais uma dezena de livros e enfrentaria os baluartes da moral e dos bons costumes da família brasileira.

Com o golpe militar e a implementação da ditadura nos anos 1960, Cassandra passou a ser uma das grandes inimigas do regime. Diferente de muitos perseguidos por seus posicionamentos políticos, Cassandra era temida pelo combo: lésbica & famosa. Como ousaria uma mulher escrever textos de caráter erótico falando de forma despudorada sobre os amores e os desejos femininos? Isso era um temor e tanto para a moral e cívica da época.

Cassandra Rios em foto de Luigi Mamprin, na revista Realidade, anos 70.

A autora mais censurada do país

Dos 50 livros publicados por Cassandra Rios, 36 deles foram censurados! Ela chegou a receber ordem de prisão após o lançamento do livro Eudemônia, de 1949, isto é, bem antes do regime militar. A prisão foi delegada por “temas atentatórios à moralidade pública”. De algum modo, a pena de um ano de prisão acabou sendo revogada e Cassandra seguiu livre. De todo modo, essas perseguições do estado impactaram na distribuição e nos lançamentos da autora.

Ainda hoje é difícil achar seus livros para a venda e muitos deles foram editados apenas de forma independente, já que as editoras não queriam publicá-los. Além disso, em muitos desses processos de censura, os livros de Cassandra eram recolhidos e acredita-se que a grande maioria dessas apreensões foram incineradas. Fato é que essas repetidas perseguições transformavam o nome de Cassandra cada vez mais em um nome relevante no universo literário: seus livros eram vendidos aos montes, mesmo que os leitores escondessem-nos embaixo de suas camas, com medo da repressão.

Entre os leitores famosos, estavam João Acácio Pereira da Costa –  o Bandido da Luz Vermelha, que chegou a mandar cartas e recortes para a autora – e Jorge Amado, que em diferentes momentos veio a público defender a liberdade de publicação das obras de Cassandra Rios. Esses burburinhos todos ajudaram nas vendas da autora, que chegou a marca de mais de um milhão de livros vendidos ainda nos anos 70, o que a transformou na primeira escritora mulher a atingir tal feito.

O terror da moral: uma mulher lésbica e popular

O sucesso popular de vendas de Cassandra Rios a fez se tornar uma espécie de mito. Seus livros ganharam as telas de cinema em três filmes: A mulher serpente e a flor (J. Marreco, 1983), Tessa, a gata (John Herbet, 1982) e Ariella (John Herbet, 1980). Os dois últimos filmes foram protagonizados por Nicolle Puzzi, atriz fundamental da Boca do Lixo e atualmente apresentadora do Canal Brasil. Ela e Cassandra foram amigas e a própria Nicole fala no documentário Cassandra Rios – A Safo de Perdizes (2013), de Hanna Korich, sobre as complexidades que Cassandra enfrentou sendo uma mulher tão livre em uma época tão repressora.

Em sua última entrevista, em 2001, para a revista TPM, Cassandra falava com total convicção que grande parte de sua perseguição vinha basicamente do fato de ser mulher: “desde os primórdios da civilização, a mulher luta pelo direito de falar, de pensar. Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada. Nunca pensei desse jeito. Escrevi com a ingenuidade de quem nasce escritor.”

Nessa mesma entrevista, ela ainda fala: “escrevi uns 30 livros sobre homossexualidade. É o máximo uma mulher ter coragem de falar que ama uma mulher, ou um homem falar que ama um homem… com pureza. Os homossexuais têm coragem de amar”. Ao se referir à Parada LGBTQ+ daquele ano, ela dizia “quando vejo 200 mil pessoas na Parada Gay, sei que valeu a pena ser perseguida. Vi a liberdade, assumida, passando diante dos meus olhos e chorei de emoção”.

Cassandra Rios morreu em março de 2002, em decorrência de um câncer colorretal, aos 69 anos. Ela escreveu até o final de sua vida, tanto assinando como Cassandra Rios, como em trabalhos de ghost writer.

Hoje em dia, podemos dizer que a autora é fundamental quando pensamos em falar na escrita como mercado de trabalho e negócio, assim como quando falamos de best-sellers e popularidade no Brasil do século XX. Além disso, é nome fundamental na literatura lésbica brasileira e criou centenas de personagens femininas múltiplas, completas e apaixonadas. Infelizmente, hoje em dia seus livros estão fora de catálogo e apenas são encontrados em sebos ou edições on-line.

Pequeno guia para conhecer mais de Cassandra Rios:

1. Assista ao documentário Cassandra Rios – A Safo de Perdizes (2013), de Hanna Korich.

2. Leia o livro Pornografia e Censura: Adelaide Carraro, Cassandra Rios e o Sistema Literário Brasileiro nos Anos 1970, de Rodolfo Rorato Londero, lançado pela Editora EDUEL em 2016.

3. Confira a última entrevista dada por Cassandra Rios, para a Revista TPM, em 2001.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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