Bruce LaBruce: a pornografia como forma de enfrentamento

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O cineasta Bruce LaBruce

Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

Bruce LaBruce nasceu em Ontario, no Canadá, mas vive atualmente em Toronto, cidade que o abrigou e na qual ele produziu grande parte de suas obras. Cineasta, escritor, fotógrafo e artista underground, Bruce é essencialmente um provocador que mistura sexo, política e contravenção em obras que sempre tencionam a norma.

A carreira de Bruce começa nos anos 80, relacionada ao movimento queer punk e queercore, subgêneros queer dentro do universo do rock alternativo. Nessa época, LaBruce assinava o fanzine J.D.s. ao lado do artista G.B. Jones. Quando se enxerga hoje, podemos dizer que Bruce e G.B. estavam no cerne do nascimento dessa cena queer no universo punk, já que nessa época pouco se falava em gays ou lésbicas dentro desse submundo.

De qualquer modo, o nome de Bruce LaBruce vai ganhar o mundo mesmo no início dos anos 90, com o lançamento de seu primeiro filme, No Skin Off My Ass (1991), que conta a história de um cabeleireiro punk que fica apaixonado por um skinhead. Explícito e politizado, o filme ganhou status cult quando Kurt Cobain incluiu o título em uma lista de seus filmes favoritos na época.

Seu segundo filme, Super 8 1⁄2 (1993), ganhou lançamento em festivais respeitados de cinema, como Sundance e Toronto, e insere LaBruce como um dos nomes do que se chama New Queer Cinema, ao lado de autores como Greg Araki, Todd Haynes e Derek Jarman. Esse movimento era caracterizado pela nova leva de jovens autores trazendo para as telas histórias com personagens LGBT como protagonistas. LaBruce nunca foi 100% conectado com esse termo, ele prefere mesmo a rebeldia do queercore, mas é importante classificarmos ele dentro desse espectro para entendermos o contexto que ele habitava.

“The Raspberry Reich” (2004)

Dos anos 90 ao início dos anos 2000, Bruce dirigiu diferentes longas como Hustler White (1996), Skin Flick / Skin Gang (1999), The Raspberry Reich (2004) e Otto; or Up with Dead People (2008). A maioria desses filmes foi exibida aqui no Brasil via Festival MixBrasil, porém eles não receberam lançamento comercial aqui e é até explicável, já que Bruce não é um autor simples. Esses filme seguem suas temáticas típicas como sexo, violência, política, neonazismo, fetiches sexuais e mais uma centenas de temas não muito comerciais. Otto..., por exemplo, é sobre um futuro distópico com zumbis gays.

The Raspberry Reich é um dos mais interessantes dessa fase: uma líder feminina comanda uma gang de homens gays que buscam a revolução, pois consideram a heterossexualidade um ato contra-revolucionário. Visualmente, temos cenas de sexo explícito, com falas icônicas de políticos passando em fontes grandes e coloridas pela tela e cenas de sexo e nudez na frente de uma grande parede estampada com o Che Guevara. Os slogans do filme já são clássicos: “Heterosexuality is the opiate of the masses” (“a heterossexualidade é o ópio das massas”) e “The Revolution is my boyfriend!” (“a revolução é o meu namorado!”).

Profano e provocador

“Obscenity”, 2011

Além do trabalho de cineasta, LaBruce também tem um importante trabalho de fotografia, sendo publicado em diferentes revistas e tendo exposições importantes ao redor do mundo, incluíndo algumas mostras no MoMA. Suas fotos seguem o mesmo universo temático: sexo, violência e política se encontram com as temáticas religiosas em fotos icônicas e fortes. Sua mostra Obscenity, por exemplo, faz colidir o sexo e os símbolos católicos de forma intensa, o que gerou inclusive protestos em sua abertura na Espanha.

Nos últimos anos, além do circuito de arte, Bruce LaBruce também assumiu de vez a sua persona de pornógrafo e dirigiu diferentes filmes para produtoras gays. Seus trabalhos ao lado da CockBoys e da Men.Com são interessantes mesclas de seu universo imagético com a estética dos clássica dos pornôs. Além de trabalhar com nomes fundamentais do pornô atual, ele também costuma trabalhar ao lado de François Sagat, ator que já protagonizou seu longa L.A. Zombie (2010), uma espécie de pornô-gore de zumbis.

Nos últimos anos, em seus longa-metragens é notável que LaBruce suavizou, em alguma medida, as suas imagens, mas os seus debates estão lá de forma estridente, seja no romance complexo de Gerontophilia (2013) ou na luta feminina em As Misândricas (2017). Seu mais recente filme, “Saint-Narcisse” (2020), estreou por aqui ano passado, no Festival MixBrasil, e fala sobre irmãos gêmeos em uma relação incestuosa que envolve abusos sexuais de padres e uma trama familiar meio rocambolesca, parece confuso, mas funciona de forma divertida.

Enfim, foi difícil escrever esse texto, pois é difícil definir o trabalho de LaBruce. Tudo que ele produz é muito politizado e muito consciente de seu tempo, porém ao mesmo tempo é extremamente divertido, escrachado, debochado e, por que não, sexy! Só LaBruce poderia fazer um curta-metragem protagonizado pelo ator pornô PigBoy em que a temática é refugiados em uma relação de amor e sexo, sabe? E ele faz isso em “Refugee’s Welcome” (2017).

Vale conferir as fotos, os filmes, os pornôs e todo o universo que envolve a figura de Bruce LaBruce. Pode ser uma obra que não é do agrado de todos, mas certamente te mexerá de alguma forma e isso que é interessante: uma arte que nos questiona, nos tira do lugar comum e nos faz pensar sobre o que vimos. Bruce é um artista ainda em produção constante e que vale ser acompanhado.

Pequeno guia para conhecer mais de Bruce LaBruce:

  1. Assista “The Raspberry Reich” (2004). Se possível, busque pela versão sem cortes do filme!

2. Acesse o site de Bruce LaBruce, lá é possível navegar por suas obras de fotografia, saber mais sobre suas exposições e conferir alguns de seus outros projetos.

3. Assista “Gerontophilia” (2013). Esse filme é mais delicado e conta a interessante história de amor entre um jovem cuidador de idosos e um dos idosos do asilo onde ele trabalha.

4. Para os mais ousados: busque pelos filmes “Flea Pit” e “Purple Army Faction”, produzido por LaBruce para a CockBoys, com participações de François Sagat e Dato Foland.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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