Assassinatos de gays em Curitiba levantam suspeita de serial killer; polícia civil investiga

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Ao menos dois homens gays foram assassinados em Curitiba depois de encontros marcados em apps de relacionamento voltados para pessoas da comunidade LGBTI no último mês. As semelhanças na maneira que as mortes ocorreram e no perfil das vítimas levantam a suspeita de que a mesma pessoa seria responsável pelos casos e apontam para um possível serial killer.

A primeira vítima, o enfermeiro David Levisio, teria sido encontrada amarrada no último dia 02 e com sinais de tortura. Além disso, um travesseiro estava próximo ao corpo indicando asfixia. Já no último dia 06, o corpo do médico Marcos Vinício Bozzana da Fonseca com as mesmas características. Os crimes ocorreram com certa de 3 km de distância.

O Dentro Do Meio entrou em contato com a Polícia Civil para ter mais detalhes sobre os casos e o andamento das investigações, mas foi informado que não receberia detalhes preliminares do caso para preservar os próximos passos da operação que busca identificar o autor dos crimes. Veja abaixo o comunicado.

A PCPR segue investigando os casos e realizando diligências para esclarecer os fatos. Nós não disponibilizamos os números de inquérito e mais detalhes não serão repassados para não atrapalhar as investigações.

Apps de encontro não se responsabilizam por agressões e assassinatos

Atualização: Após a publicação, Hornet e Scruff responderam nossos e-mails, mas apenas o Hornet pediu para que a nota fosse divulgada. A equipe responsável pela comunicação do Scruff no Brasil nos orientou a procurar o escritório do exterior que ainda não se pronunciou.

Infelizmente, casos de violência que ocorrem depois de encontros marcados em apps não são novidade. Apenas aqui no site, denunciamos o caso de Murilo Marques, ex-participante do Bake Off Brasil, e Eduardo Lopes, morador de Piracicaba, no interior de São Paulo. Embora os detalhes dos crimes sejam diferentes, ambos começaram por meio de um aplicativo de relacionamento.

O Dentro Do Meio entrou em contato com Hornet, Scruff e Grindr para entender como eles se posicionam sobre crimes originados das plataformas. Especificamente sobre os casos de Curitiba e por e-mail, o Grindr disse:

“Ficamos profundamente tristes ao saber sobre a violência que nossos membros da comunidade enfrentam tanto online quanto offline. O Grindr publica um guia de segurança holístico que está disponível em vários idiomas, inclusive em português. O Grindr também incentiva os usuários a serem cuidadosos ao interagir com pessoas que não conhecem e a relatar comportamento impróprio ou ilegal dentro do aplicativo ou diretamente por e-mail para help@grindr.com. Os usuários são incentivados a relatar alegações criminais às autoridades locais e, nesses casos, trabalhamos diretamente com as autoridades policiais, conforme apropriado”.

Questionado sobre o Guia de Segurança, o Grindr não retornou nosso contato.

Já o Hornet anexou dois links com guias de segurança disponíveis em inglês na plataforma e disse que a polícia ainda não entrou em contato com eles. Lei a nota na integra:

Embora ainda não tenhamos ouvido da polícia sobre esse incidente, o Hornet fica arrasado ao saber da morte desses dois homens em Curitiba. E embora o Hornet não seja capaz de controlar o que acontece fora do aplicativo, nós nos esforçamos para criar um ambiente seguro para todos os que estão usando o Hornet.

O Hornet cria regularmente recursos para nossos usuários quando se trata de segurança, como este documento que lista dicas gerais de segurança para comportamentos online e offline e um documento separado que inclui dicas de segurança para países anti-LGBTQ. Embora o Brasil como um todo não se enquadre nessa categoria, algumas partes do país podem se enquadrar. Todas as dicas de segurança nesses dois documentos são importantes para todos os usuários do Hornet em todo o mundo seguirem ao tirar uma troca do aplicativo e colocá-la em uma reunião pessoal.

Nos Termos de Serviço, as três plataformas se isentam total ou parcialmente de qualquer responsabilidade de crimes que tenha acontecido depois de encontros marcados nos apps. Com sede nos EUA, as três, inclusive, dizem que ao usar os apps e concordar com os Termos De Serviço qualquer usuário abre mão de ações legais que possa responsabilizá-los por qualquer coisa.

O terceiro item da seção RESTRIÇÕES DE IDADE E SEGURANÇA do contrato do Grindr é bem enfático ao dizer, em caixa alta, que “NÃO É RESPONSÁVEL PELA SUA UTILIZAÇÃO DOS SERVIÇOS DA GRINDR, NEM PELAS AÇÕES DE OUTROS USUÁRIOS COM OS QUAIS VOCÊ POSSA TROCAR INFORMAÇÕES OU MANTER CONTATO”. O item ainda diz que “NÃO CONFIRMA AS INFORMAÇÕES FORNECIDAS PELOS USUÁRIOS NO QUE DIZ RESPEITO À SUA IDENTIDADE” e “NÃO VERIFICA OS ANTECEDENTES CRIMINAIS OU REALIZA OUTRAS VERIFICAÇÕES DE ANTECEDENTES DE SEUS USUÁRIOS”.

Já o Scruff, que pertence ao Perry Street Software, diz também em caixa alta no quarto item dos Termos e Serviços que “VOCÊ ENTENDE QUE SEU USO DO SERVIÇO PODE ENVOLVER RISCOS CONHECIDOS E NÃO ANTECIPADOS QUE PODEM RESULTAR EM LESÕES OU DOENÇAS” e reforça que ao usar o app você “VOCÊ, VOLUNTARIAMENTE, LIBERA, RENUNCIA, DESCARGA E MANTÉM INOXIDÁVEIS AS PARTES DO SOFTWARE PERRY STREET DE QUALQUER E TODAS AS REIVINDICAÇÕES, EXIGÊNCIAS OU CAUSAS DE AÇÃO POR LESÕES CORPORAIS, DANOS À PROPRIEDADE, MORTE ERRADA, PERDA DE SERVIÇO OU DE OUTRA FORMA DE REIVINDICAÇÃO RELACIONADO AO SEU USO DO SERVIÇO”.

Por fim, o Hornet busca uma postura mais neutra ao não se isentar completamente e, ao invés disso, publicar uma lista de proibições de comportamento na plataforma. Parte das regras fala sobre não ser permitido usar os serviços para algo que “possam levar diretamente à morte, ferimentos pessoais ou graves danos físicos ou de propriedade”; usar o app para “‘perseguir’, assediar, abusar, difamar, ameaçar ou fraudar outros usuários, ou coletar, tentar coletar ou armazenar a localização ou informações pessoais sobre outros”; “usar o Hornet Services para qualquer finalidade ilegal ou em violação de qualquer lei local ou internacional”, entre outros.

Justiça pode exigir dados e quebra de sigilo

A tentativa de isenção dos Termos e Serviços dos apps não tem força diante da jurisdição e leis do Brasil. A justiça brasileira pode exigir dados e quebra de sigilos dos usuários. Na prática, disso quer dizer que a Polícia de Curitiba pode ter acessos às conversas e últimas localizações do autor dos crimes que vitimou dois gays.

Se durante as investigações houver o entendimento de que a plataforma não colaborou com a resolução dos processos, o serviço pode ser suspenso em todo território nacional. O mesmo vale para as regras de segurança. Se a justiça interpretar que os apps devem ser mais severos neste sentido, isso deve ser acatado.

Comentários

Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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