António Variações: o ícone pop português que quase foi esquecido em função do preconceito

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Esse texto faz parte de uma série chamada “Os entendidos” em que revisitaremos a história e o legado de 12 personalidades queer importantes para a história da arte e da cultura.

António Variações pode ser definido com muitos epítetos: o cantor pop de barba marcante e brincos nas orelhas; o barbeiro que dominava as tesouras; o autodidata que não sabia uma nota musical sequer, mas que compôs canções de rara beleza; o fã de Amália Rodrigues que cantava como os fadistas em meio as batidas pop dos anos 80. Definições que quase foram apagadas com a morte precoce do artista, em 1984.

Natural do interior de Portugal, da região de Fiscal, em Amares, cidade próxima de Braga e a cerca de uma hora de Porto, António dividiu sua infância entre a escola e o auxílio na lida do campo, ao lado da família; mas logo aos 12 anos já partiu para Lisboa, onde trabalhou em diferentes empregos como aprendiz de escritório, barbeiro, balconista e caixeiro. No início da vida adulta, cumpriu o serviço militar português, atuando em Angola, durante a guerra. Variações trabalhava decodificando mensagens cifradas do exército e também ministrava catequese para meninos angolanos – essa informação é curiosa, já que posteriormente ele se afastaria completamente da Igreja Católica.

Depois dos anos de militar, ele também passou temporadas em Londres e em Amsterdã, durante os anos 70. As duas cidades cosmopolitas são fundamentais para a formação do futuro artista Variações, em estética e linguagem, mas também por sua segunda profissão: é em Amsterdã que ele aprende o ofício da barbearia, que seria o seu sustento no retorno a Portugal. Enfim, antes mesmo de subir aos palcos, sua figura já era considerada excêntrica: sua barba sempre bem delineada, com o bigode louro, acompanhado de seus looks sempre marcantes.

Foto: Teresa Couto Pinto.

A curtíssima carreira no início dos anos 80

Casacos de couro, cores fortes, camisas bem armadas, regatas justas, botas e calças de couro, chapéus e brincos nas orelhas. Visualmente, António era uma figura que chamava atenção e, por isso mesmo, suas apresentações na noite portuguesa, na virada dos anos 70 para os 80, se tornaram sucesso e passaram a gerar certo burburinho. Em paralelo a isso, Variações tentava lançar seu primeiro álbum através de uma gravadora: Anjo da Guarda, seu disco de estreia, saiu em 1982, com uma mistura interessante entre ritmos portugueses e música pop cosmopolita. Com isso, ele passou a aparecer em programas populares da TV portuguesa e sua imagem impactante passou a ser vista com curiosidade & receio pelos espectadores.

Variações seguia fazendo viagens a Londres e, especialmente, a Amsterdã, cidade que o conectava com modernidades que ainda engatinhavam em Portugal. Curioso e interessado pelo novo, o artista gostava de se aventurar pelas mais diferentes referências, desde sua amada Amália Rodrigues e as outras vozes do fado até os mais modernos músicos de eletrônica que faziam tremer as pistas das discotecas. Com essas referências, entre 1983 e 1984, ele gravou seu segundo disco, Dar e Receber (1984), em processo que já dava conta de sua frágil saúde, entre cansaços e desânimos.

António faleceu em 13 de junho de 1984, constando em seu atestado de óbito uma broncopneumonia bilateral extensa como causa da morte. Seu velório foi cheio de cuidados sanitários e outras questões que deixavam a antever uma epidemia: o HIV/AIDS. Acredita-se que António Variações foi um dos primeiros casos de paciente a morrer em decorrência da AIDS em Portugal, porém isso é tema tabu, sob o qual muito se omite, por isso mesmo sua figura se tornou tema esquecido durante muitos anos.

Um legado quase apagado pelo preconceito

Sua família católica e interiorana sempre fugia dos temas que envolviam a sexualidade e a posterior morte de Variações, por isso essas questões ficaram sempre em segundo plano. Mas essencialmente eles são parte essencial do que é António Variações: suas canções, sua estética, sua imagem e suas escolhas são claras e importantes. Delimitam um artista forte, inteligente, extremamente interessante e ainda muito moderno.

Seu legado foi sendo resgatado aos poucos em Portugal: matérias e grandes reportagens começaram a ser feitas nos anos 1990 e 2000, e em 2004, surgiu a banda Humanos, um projeto que reuniu sete conhecidos músicos portugueses em um álbum com canções inéditas de Variações – o disco traz 12 músicas que estavam em diferentes fitas k7 com gravações caseiras do próprio artista. O projeto se tornou um sucesso e essas canções levaram também a uma retomada aos primeiros discos de Variações, tanto que a partir dos anos 2010 várias canções do artista são regravadas e aparecem em trilhas sonoras.

Em 2019, estreou nos cinemas portugueses o longa Variações, de João Maia, uma cinebiografia que põe luz na história do artista, deixando claro temas como a homossexualidade e o HIV/AIDS. O filme se tornou o mais visto em Portugal em 2019, sua trilha sonora virou um sucesso e a banda do filme até tocou em festivais por lá. Obviamente, o filme também gerou críticas de familiares e amigos de Variações, que criticaram a visão que o filme trazia sobre a sexualidade do artista, dizendo que isso não seria relevante.

Enfim, António Variações é um compositor incrível, um artista pop interessante, instigante e a sua figura merece ser mais celebrada pelas bandas de cá, no Brasil. Vale se aventurar por suas canções, por suas apresentações, suas fotografias, sua figura enigmática e sedutora!

Foto: Teresa Couto Pinto.

Pequeno guia para conhecer mais de António Variações:

1. Ouça os discos Anjo da Guarda e Dar & Receber, disponíveis no Spotify. Ouça também o disco Humanos, em homenagem ao artista, de 2005.

2. Assista a cinebiografia Variações, 2019, de João Maia. Confira o trailer.

3. Os artistas brasileiros Filipe Catto, Zeca Baleiro e Laura Wrona tem versões para músicas de Variações. Vale ouvir!

4. Para quem quiser afiar o inglês, vale conferir esse interessante perfil de Variações publicado ano passado no The Guardian.

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Renan é jornalista de cultura e escreve sobre música e cinema nos sites independentes Scream & Yell e Monkeybuzz. Nas horas extras, comenta novelas antigas no Twitter.
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