Adeptos do dog play falam da popularização e preconceito contra a prática

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“Você gosta do estilo cachororinho”? Foi com essa pergunta e usando uma máscara canina que a drag queen Yara Sofia iniciou sua participação na atual temporada de RuPaul’s Drag Race All Stars. Para alguns, aquilo pode ter sido apenas uma brincadeira, mas para outros o acessório foi uma bela referência ao “Pet Play”, prática do imenso universo BDSM em que o indivíduo se torna um bichinho de estimação de outra pessoa, obedecendo seus comandos, imitando sons e se comportando como um verdadeiro animal.

Dentro desse fetiche existem subcategorias como o Dog Play — estilo de vida exclusivamente para quem sente prazer em se comportar como um cãozinho. Nele vale usar máscaras de couro, coleira e até plug anal com um rabo de pelúcia. Este geralmente é o preferido do público gay.

O cantor, DJ e criador de conteúdo adulto JP aka JP (27) é um dos adeptos deste grupo. “Meu primeiro contato foi em fotos, vídeos, filmes, séries… Depois disso, eu pesquisei um pouco na internet e acabei conhecendo puppies* brasileiros”, conta o influencer.

*A palavra puppies pode ser traduzida como cãezinhos ou bichinhos de estimação. Foto: @hephestus_alphapuppy

Já o biólogo Bruno Amaral (28) conheceu a atividade pela internet durante a pandemia. Depois de assistir um filme de pornô com esse tema, ele se interessou pela estética e comprou uma máscara para poder viver a experiência a partir de então.

“Vi que eu curtia. Comecei a conversar com praticantes do dog play, ler a respeito. Aí comprei a máscara e decidi experimentar”, lembra o admirador. Segundo Bruno, o dog play mudou completamente a maneira de expressão do afeto com o seu namorado, que também é puppy.

“A gente rosna e late um pro outro o tempo todo”, conta aos risos. “Começa como um fetiche, mas hoje o dog play existe em âmbitos da minha vida que não são necessariamente sexuais”.

Alteregos

Foto: @pupscoobyboo

Na cena fetichista é comum que os praticantes criem personagens para entrar na fantasia. JP, por exemplo, encarna o “Scooby Boo” no Dog Play. “Sou fã de Scooby Doo e a minha persona é baseada nele. Eu acho que a maior parte dos puppies escolhe o próprio nome”, explica.

Bruno e seu namorado são Pinky e Sadan, respectivamente. O primeiro buscou inspiração no próprio BDSM e o segundo em um cachorro real que existiu.

“Eu tenho um fetiche em axilas, que no flagging* é associado à cor magenta. Mas ‘Magenta Pup’ soa meio blasé, né? Eu queria um nome que fosse fácil de assimilar em inglês, então Pinky pareceu perfeito. Faz alusão ao magenta, que é meu flag e é fácil de assimilar”, explica o fetichista. “Sadan é uma homenagem a um Pit Bull que ele tinha quando mais novo, e ao mesmo tempo uma referência a satan mesmo”.

*Dentro do BDSM, flagging tem a função de marcar. Décadas atrás, homens gays usam lenços nos bolsos para codificar o que gostavam na hora do sexo. Com tempo as cores deixaram de aparecer nos lenços para aparecer nos harness até que o significado das cores foi deixando de ser difundida e hoje é puramente estético. Foto: @kinky_chaser

Na comunidade de Dog Play, cães reais são referidos como “caninos”, para diferenciá-los dos humanos.

Regras

Comum no BDSM, o jogo de hierarquia e obediência também é presente entre os adeptos do Pet Play e suas designações. Normalmente tem relação com jogo de submissão (pet) e dominação (mestre). E contrariando o que pensam, nem sempre está relacionado a sexo.

Especificamente entre os cachorros pode acontecer de um grupo criar uma matilha e nela cada integrante desempenha um papel. É o caso do pug Hephestus e do labrador Bacchus — alter egos de um profissional de relações públicas e de um antropólogo que estuda masculinidades. Os dois se relacionam com outros puppies e estão juntos há 7 anos.

“A estrutura que eu e o Mestre moldamos foi: Há um Mestre, que é quem manda em tudo, há um Alpha que é responsável em treinar os filhotes e também em manter a ordem quando o Mestre não estiver”, conta Hephestus se referindo a Bacchus como seu Mestre. Os outros cães são um Beta chamado Éos (São Bernardo) e um Gama chamado Puppy Dann (Mastiff).

Já entre Pinky e Sadan, o acordo é outro. “Nosso relacionamento particularmente é horizontal. A gente reveza a posição de dominância”, compartilha um deles. Outros como Scooby são adeptos ao pet play, mas não necessariamente possuem um mestre como Hephestus e sua matilha.

Preconceito

Cada vez mais presente no mainstream é muito comum que pessoas fora desse nicho confundam o fetiche com o crime de zoofilia. A prática não possui qualquer relação com isso e é totalmente abominável entre os praticantes. “Muita gente não entende direito também, eu mesmo era um desses”, admite Scooby antes de se aprofundar no dog play.

Pinky já percebeu alguns olhares, mas nada muito explícito. “A galera só olha estranho. Mas é normal né? É novidade”, pontua.

Hephestus também já percebeu alguns olhares de julgamento, mas compartilha outra opinião e experiência sobre preconceito. “O pet play de certa forma é o fetiche mais fofo né… As pessoas acham interessante e tal… Até porque já estão mais normalizadas com a questão do cosplay. Uma vez fomos em grupo pro Ibirapuera… Foi bem legal… As pessoas tiravam fotos e tal”, lembra o pug.

Acessórios

Para os amantes do pet play, vale tudo para sentir prazer com a prática: andar de quatro, abanar o rabo ou até mesmo emitir sons. Mas caso você queira deixar a experiência ainda mais fetichista, o mercardo erótico desfrusta uma série de acessórios como roupas, coleiras, tigelas, plug anais com rabo aclopados, entre outros. Dentre todas essas opções, talvez o que chame mais atenção dos adeptos ou não sejam as máscaras de couro e focinheiras.

Pinky compartilha que tem dificuldade em usar as máscaras em ambientes muito sociais pois fica com tesão, mas entrega que o namorado já é mais experiente e tranquilo quanto a isso. “Já deu rolê na paulista de dog, já saiu pra comer, já foi no parque, etc. Eu no máximo já dei rolê de dog aqui pela liberdade, que é onde a gente mora”, relata.

Um professor de artes e figurinista — que aqui vamos chamar de Red Nose (48) — conheceu o dog play após se apaixonar por uma máscara que viu em uma hashtag sobre o apetrecho no Instagram, em 2015. “Bateu o tesão e o interesse. Depois disso, eu fui pesquisar sobre o assunto”, relembra.

Red conta que demorou pelo menos uns 3 anos até importar sua primeira peça. Nesse período, ele se manteve apenas como um “observador e apreciador”. Como o objeto era caro, ele teve a ideia de fabricar ele mesmo.

A experiência foi tão satisfatória que ele decidiu criar um modelo próprio onde a cabeça fica livre para receber afago e a boca fica livre para usar como o pet quiser. As peças fizeram tanto sucesso entre seus seguidores no Instagram que ele passou a vender para todo o Brasil e no exterior. “Eu custei a acreditar que seria um produto comercial”, lembra.

Hoje, Red conta que seu trabalho e o fetiche se misturam. Além de trabalhar como professor, ele é dono de uma loja fetichista chamada “Tuft Squad”. “Atualmente fabrico [produtos para] sete animais diferentes, fora roupas em couro e acessórios”, compartilha o empresário.

Por conta da experiência no Dog Play, Red considera que ele se assumiu duas vezes: “Assim que os fetichistas gay enxergam viver o fetiche: sair pela segunda vez do armário e viver plenamente sua sexualidade”.

Para todos os públicos

Conforme relatamos anteriormente, o Dog Play é a variante preferida dos homens gay, porém nada impede que mulheres se identifiquem com este grupo. “O Pet Play não tem gênero definido”, nos conta Red Nose. “Os dogs são os preferidos dos meninos gays, os gatos são os modelos preferidos das meninas, os cavalos são os preferidos dos casais héteros. Os lobos geralmente são de Dominadores independente do gênero. Os porcos são geralmente submissos, também independente do gênero”, conclui o profissional. E você, já escolheu seu bichinho?

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Felipe Caldas é jornalista em construção criativo e curioso. Ama tudo relacionado a internet, cultura pop e ao universo LGBT.
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