1 em cada 3 LGBTIs sofre discriminação toda semana na pandemia

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Foto: Kaloian-Secretaria de Cultura da Nação/Fotos Públicas

36% dos LGBTIs são vítimas de discriminações a cada semana durante a pandemia. Este é um dado do Inquérito Nacional de Saúde LGBTQI, uma pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na prática, isso significa que 1 em cada 3 LGBTIs sofre violência discriminatória toda semana. E 11% dessa violência ocorreu em postos de saúde ou por profissionais de saúde.

O estudo também apontou outro agravamento, agora na saúde mental. A população LGBTI tem o dobro de relatos de depressão do que toda a sociedade. Enquanto a depressão afeta 10% da população brasileira – segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo IBGE em 2019 – , no Inquérito Nacional de Saúde LGBTQI, ela apareceu em 25% dos entrevistados. E 18,9% dos participantes afirmaram que se sentem sozinhos sempre.

O aumento de diagnósticos mentais com a pandemia na população LGBTI não é uma novidade. No último ano, um estudo do coletivo #VoteLGBT com a agência de pesquisa Box1824 mostrou que 42% dos 10 mil entrevistados consideraram a piora na saúde mental como o maior problema que estavam lidando naquele período. Procurado pela reportagem, o coletivo #VoteLGBT afirmou estar analisando a possibilidade de refazer este estudo em 2021, considerando que a pandemia completou um ano e seus impactos seguem presentes.

Artista e modelo, Odara Soares é uma das ativistas que têm utilizado a internet para escancarar a violência LGBTfóbica neste momento de isolamento social. Segundo ela, não há surpresas na ligação entre a pandemia e a saúde mental da população LGBTI. “Para nós, pessoas trans e travestis, não é nenhuma novidade termos a saúde mental debilitada, por conta do contexto social em que estamos inseridas. Acredito até que a comunidade LGBTI como um todo, pela negligência social, o preconceito, a pressão, os julgamentos e tudo aquilo que nos atravessa durante a nossa vida. Então, nós temos um peso social, nós já entramos nesse contexto pandêmico com uma bagagem a mais, uma bagagem muito mais pesada do que outras pessoas. As pessoas cis, héteras e normativas não sabem como é”.  

1 ano de pandemia, 1 ano de violências

E se a violência aumenta, o amparo é inexistente. Estimativas da Antra – Associação Nacional de Travestis e Transexuais apontaram que 70% da população trans do país não conseguiu ter acesso às medidas emergenciais oferecidas pelo Governo Federal. Além disso, apenas 4% da população trans feminina está em empregos formais, enquanto 6% está em atividades informais ou subempregos. E o mais agravante: 90% dessa população segue na prostituição, mesmo com a covid-19 em alta.

“Acreditava-se que, durante a pandemia, os índices de assassinatos [de pessoas trans] poderiam diminuir, como aconteceu em outras parcelas da população. Mas, quando vimos que o assassinato de pessoas trans aumentou, notamos que a vida das pessoas trans tem sido diretamente afetada. Temos um cenário onde os fatores sociais se intensificam e impactam a vida das pessoas trans, especialmente as travestis e mulheres transexuais trabalhadoras sexuais, que seguem exercendo seu trabalho nas ruas para ter garantida sua subsistência”, afirmou a Antra, em dossiê.

Dados preliminares do projeto TransAção, uma realização da Antra com a Defensoria Pública do Rio de Janeiro (DPRJ), mostraram que 94,8% da população trans entrevistada sofreu algum tipo de violência motivada por discriminação à sua identidade de gênero durante a pandemia. Além disso, 58,6% se declarou pertencente ao grupo de risco da covid-19.

Em seu dossiê, a Antra denuncia a ausência de políticas públicas voltadas para a população LGBTI, o que agrava o cenário de desigualdade. Dois meses após a publicação deste documento e um ano após a chegada do coronavírus no Brasil, o país segue sem políticas específicas para essa comunidade. “É evidente que a nossa vida piorou, e é evidente que a nossa vida está pior do que a de outras pessoas na sociedade. Além de toda a bagagem que nós temos que enfrentar, ainda tem a crise econômica, a crise de saúde e um governo genocida, que adoraria nos matar, se pudesse”, conclui Odara Soares.

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