Por que a imprensa arranca celebridades do armário?

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Do ano passado para cá tenho observado a volta de uma tendência muito forte no início dos anos 2000. Alguns veículos, inclusive os ditos LGBT, estão obsecados em arrancar celebridades do armário.

Somente nos últimos meses assistimos a imprensa explorar o relacionamento de uma atriz global que chegou a dizer para amigos próximos que ainda não se sentia a vontade para falar dele.

Depois, vimos um outro ator, que fez par romântico com uma atriz transexual no horário nobre, ter o casamento nos mesmos veículos.

Por fim, temos outro ator nas manchetes por “encantar mulheres, mas ser casado com homem”. A pergunta é: para quem interessa a vida privada destas pessoas.

Quando mais jovem, eu tinha a teoria de que, de uma maneira distorcida, isso ajudava a trazer mais visibilidade para pessoas LGBTI, afinal, era mais uma forma de mostrar que somos pessoas normais e estamos em todos os lugares.

A maturidade, no entanto, me ensinou que não podemos apressar o tempo que as pessoas levam para entender que está tudo bem em ser quem é e que forçar uma saída do armário pode ser muito mais danosa do que positiva.

Se, mesmo que casado, um ator ou atriz escolhe manter sua vida particular e seu status de relacionamento privados, que bem faz colocar isso nas chamadas de matérias?

Ainda que e a intenção seja normalizar a sexualidade, essa pessoa claramente não está pronta por N questões particulares e dificilmente vai ocupar o papel de representante que podemos esperar dela.

Embora tenho enfrentado comentários do tipo “todo mundo já sabia” e feito um discurso desastroso, Reynaldo Gianecchini é a prova nacional de que, as vezes, quando a gente menos espera, as pessoas entendem que está tudo bem.

Talvez os mais jovens estejam enfrentando menos isso, mas quem nasceu até o finalzinho de 80 e quem viu diversos personagens LGBTI sete ridicularizados na TV aberta talvez entendam o medo de se assumir.

Não se trata de covardia, mas de passar boa parte da infância, quando você ainda está formando a sua personalidade, aprendendo a ter medo e vergonha do que você é.

Sair do armário é um lindo ato de rebeldia, mas que só faz sentido quando, como uma lagarta vira uma borboleta, você enfrentou todo processo de autoaceitação.

Clamo pelo dia em que ao menos os veículos especializados vão parar de repercutir as vergonhosas arrancadas do armário para celebrar somente o orgulho de quem já está pronto para viver aqui fora.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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