Faltam bons personagens LGBTI em novelas

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Goste você ou não, novelas ainda são extremamente populares e conseguem ditar comportamento, moda e levantar discussões importantes.

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Para se ter uma ideia do poder da coisa, basta olhar ao redor. Um simples lenço, usado pela protagonista da mais recente novela das 21h, virou notícia e ganhou até tutorial de uso pela internet.

Outro fator que comprova a força da atração é que, mesmo que você não seja um espectador, provavelmente você sabe o nome da protagonista, da vilã ou do autor da trama global que está no ar atualmente.

Sabendo de tudo isso, já conseguimos afirmar que é muito importante ter personagens LGBTI na TV. Ainda mais em programas que atingem tantas pessoas como é o caso das novelas.

O problema é que esses personagens não estão muito representativos e tampouco ajudando a educar nossa população, salvo raras exceções.

Personagens LGBTI precisam de tramas reais

Já tem se tornado comum que toda novela tenha pelo menos um personagem LGBTI no enredo.

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Em A Dona do Pedaço temos Agno (Malvino Salvador), Leandro (Guilherme Leicam) e Britney (Glamour Garcia). Uma vitória, certo? Nem tanto.

Os personagens são tão rasos, inverossímeis e pouco desenvolvidos que as vezes o público até esquece que existem.

A própria Britney é um exemplo. Como bem apontado por Mauricio Stycer em artigo na UOl, a personagem é um desperdício.

Não era preciso contar a história de transição da transexual, vimos isso de uma maneira bem feita com Ivan em A Força do Querer, um dos raros casos de personagem LGBTI melhor desenvolvido, mas a história de Britney não leva ninguém a lugar nenhum.

Deram um interesse amoroso para ela, só para que fosse rejeitada por ser transexual e depois, o amor que nasceu de um único beijo “vencer”. Do nada mesmo. Não houve discussão. Não houve desconstrução. A gente sabe que isso não é tão simples.

Houve uma tentativa de discutir discriminação no trabalho quando Britney foi demitida por uma das vilãs, mas mais uma vez foi tudo muito raso e atropelado que quase ninguém notou.

Casais LGBTI tem “limite” de um beijo por trama

Mesmo antes da novela começar, geralmente, a gente sabe quem serão os atores que formaram um casal. Outra coisa que a gente já sabe é que, por costume, só no capítulo final acontecerá um beijo.

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No caso de A Dona do Pedaço, vários veículos divulgaram que Caio Castro seria o par romântico de Malvino Salvador, mas conforme a trama foi se desenrolando o casal não engrenou.

Como novela é uma obra aberta, não tem como ter certeza se o autor mudou de ideia ou se nunca foi intenção dele juntar os personagens, mas Guilherme Leicam foi escalado para viver o companheiro de Malvino.

A história desse núcleo é um pouco mais batido, mas igualmente raso. Walcyr Carrasco, inclusive, já usou essa fórmula antes em Amor à Vida e em O Outro Lado do Paraíso.

Agno é casado, pai de família, mas vive inventando desculpas para não transar com a esposa. Um belo dia, outro personagem o arranca do armário por pura maldade.

Outro personagem gay aparece, os dois se apaixonam, mas, contrariando a vida real, apenas se abraçam e se olham intensamente quando querem demonstrar afeto.

Beijos? Não! Pode até acontecer, mas geralmente é só um por novela e preferencialmente perto do final.

Uns amassos? Nem pensar! Se pegar de roupa íntima e com muita paixão é um privilégio exclusivo de personagens heterossexuais.

Dessa vez foram Vivi Guedes (Paolla Oliveira) e Chiclete (Sérgio Guizé) que ficaram com toda cota de pegação da trama.

Alívio cômico

Mesmo com personagens rasos e vazios nessa novela, nós temos sorte de não vermos personagens LGBTI como alívio cômico.

Nada pior do que ser retratado com várias camadas de estereótipos. Gays não são todos extremamente extrovertidos e cheios de bordões como o Félix ou o Crô, por exemplo.

Foi só em 2014 que tivemos a chance de ver um beijo entre dois homens na maior produtora de novelas do Brasil. Será que falta muito que para deixemos definitivamente de fazer parte dos quadros cômicos para termos tramas que de fato são necessárias?

Espero, sem muitas esperanças, que não demore para que o beijo deixe de ser o grande tabu para discutirmos os tantos tipos de discriminação que sofremos.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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