Por que não dá para comparar Legendary ao Drag Race?

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Se você está acompanhando Legendary, já deve ter percebido que, apesar da insistência de alguns em comparar, o reality não tem nada a ver com Drag Race. É bem verdade que os dois programas são competições voltadas para o público LGBT, com jurados e os participantes estão em busca de um prêmio em dinheiro, mas Big Brother e Masterchef também tem um modelo parecido, certo?

As diferenças entre os shows são muito maiores do que as semelhanças, mas, pelos dois retratarem coisas que nos foram negada por muito tempo e por sermos completamente viciados em criar rivalidade – basta ver como ficamos quando duas cantoras lançam álbum na mesma semana – as comparações são praticamente inevitáveis.

Não se trata de melhor ou pior

Não vou entrar no mérito sobre qual programa é melhor ou pior porque, ao contrário do que tentamos ensinar nos apps de relacionamento, aqui o argumento “questão de gosto” conta muito. O que serve como um bom entretenimento para alguns, não vai servir para outros. Também não estou fazendo uma crítica a Legendary ainda – farei quando essa temporada acabar.

Em todo esses anos, Drag Race já teve muitas edições e diferentes versões. Talvez seja por isso que alguns não conseguem deixar de comparar. É como se o programa de RuPaul funcionasse como uma Madonna dos relities. Por estar muito tempo na ativa e por ter feito muita coisa, quando surge algo novo, as pessoas começam a ligar uma coisa a outra.

Mas assim como Madonna não inventou a música pop, Drag Race não inventou a cultura LGBT, embora devemos reconhecer que ajudou a popularizar algumas coisas, e tão pouco inventou competições na televisão.

Tanto Legendary quanto Drag Race bebem da mesma fonte: o ball culture e a história do movimento LGBT. Mas a maneira como cada um dos programas lida com esses elementos é bem distinta.

As principais diferenças

Pois bem, tenho falado desde o começo dessa matéria que os programas são diferentes, mas cadê as evidências de que Legendary não é uma versão da HBO para Drag Race? Quais são as principais diferenças entre um show e outros? Vamos a elas:

1 – Modelo de avaliação

Embora Drag Race tenha alguns desafios coletivos, não é segredo que em todos os momentos as Queens estão sendo analisadas de forma individual. Já vimos diversos casos em que algumas delas estavam em grupos vencedores, mas acabaram indo parar no bottom 2.

Esse conceito é inversamente proporcional a como as coisa acontecem em Legendary. No programa da HBO até existem categorias individuais, mas os participantes são avaliados junto com as suas casas. Se alguém erra, todos os integrantes do grupo correm o risco de sair da competição.

2 – Tipos de desafios

Drag Race está sempre em busca de uma Queen versátil. Os desafios vão desde como criar um vestido do zero, passando por compor versos para uma música original até chegar em testes de atuação. Isso só para citar os mais comuns – mas tem muito mais coisa.

A única coisa fixa é o desafio da passarela, geralmente no final do episódio. RuPaul pede um tema e as queens precisam levar isso para uma espécie de desfile. Todos os programas e todas as edições tem isso, mas veja que aqui a passarela está muito mais próximo do que estamos acostumados a ver em realities como o America’s Next Top Model.

Quando o assunto é Legendary, a categoria determina todos os desafios e eles acontecem sempre na passarela. Aqui, inclusive, o conceito de passarela é outro e ela funciona mais como um palco do que qualquer outra coisa. Os desafios são mais centrados na cultura ball e, pelo menos até o sexto episódio, não extrapolam esses limites.

Quem está mais ligado nesse universo deve ter percebido que, além de temas como circo, realeza e afins, as categorias são pensadas para exaltar os participantes do ball. Então, não é raro vermos coisas como rostos ou corpão sendo avaliados. Isso porque o ball foi criado por negros e mulheres trans e nós sabemos como essa população é negligenciada e ensinada a não ter alto estima.

3 – Sem espaço para racismo e transfobia

Como acabamos de ver, o ball foi criado por pessoas negras e trans, você pode ver mais detalhes sobre isso no documentário Paris Is Burning (está disponível na Netflix). Mas o ponto é: embora não devesse acontecer, não é incomum ver as queens de Drag Race sendo vítimas de racismo e todos lembramos das polêmicas transfóbicas de RuPaul, certo?

Talvez seja cedo para afirmar isso, mas em Legendary existem poucas chances de vermos algo do gênero. Isso por conta do contexto histórico e por boa parte do elenco do programa ser composto por negros e mulheres trans. Aqui, essa minoria é maioria e discriminações não tem nenhum espaço.

Como estamos na metade do reality da HBO, por enquanto essas são as maiores diferenças entre os programas. As coisas podem mudar aumentando ou diminuindo as distinções, mas, de qualquer forma, só temos o que comemorar por termos mais shows pensados na gente.

Ao final de Legendary, publicaremos um crítica sobre o programa.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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