Ao defender personagem, Paulo Betti confirma caricatura da “bicha louca”

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Embora o papel de um ator seja dar vida para algo completamente diferente do que ele é, existe uma grande discussão sobre pessoas cis e hétero interpretando personagens da comunidade LGBTI. A discussão, que não é um consenso nem entre transexuais que têm ganhado mais espaço em diferentes tramas, aponta que a maneira caricata que alguns artistas da atuação escolhem para apresentar os papéis é prejudicial para toda comunidade. Com o fim da reexibição de Império, o argumento ganhou ainda mais força depois de uma postagem do ator Paulo Betti.

Na trama assinada por Agnaldo Silva, Betti vivia um dos personagens LGBT da trama. Téo Pereira era um jornalista com poucos escrúpulos que vivia em função de espalhar notícias tendenciosas sobre os outros e de infernizar a vida de Cláudio Bolgari, um personagem descrito como gay enrustido na novela, que também passa longe de dar orgulho à comunidade. Outro detalhe sobre Téo é que ele era extremamente afeminado.

Numa postagem de despedida do personagem, Betti escreveu: “Fiz a bicha louca que eu seria se fosse gay”. A declaração confirma que o compromisso era com o estereótipo, muito negativo, que ronda homens gays. Sim, gays afeminados existem. Alguns deles têm ganhando mais destaque como é o caso de Gil do Vigor e Douglas Souza, mas eles estão longe de serem unanimidade ou o único tipo de homem gay que existe no mundo. De uma maneira bem torta, a própria novela tentou mostrar isso.

Dentre dezenas de outra coisas que devem fugir do controle criativo de Paulo Betti, escolher interpretar uma “bicha louca” mostra que o imaginário do homem hétero ainda liga gays a figuras ao escândalo. Como se fosse impossível interpretar um homossexual que não é muito bom em criar bordões e frases de efeito.

Mais uma vez, homens gays afeminados existem e que bom que existem. Esse texto não é um ataque a existência deles ou defender o que parte da comunidade conhece como “discreto”. A reflexão aqui é: porque na maior parte das vezes que um homem hétero interpreta um gay ele tem basicamente as mesmas características?

Nos “humorístico” tivemos o responsável pelo bordão “olha faca” e também o do “paaapiiii!”, nas novelas Crô, Félix e o próprio Téo Pereira. Todos tem em comum a “veia cômica”, para não dizer que todos foram, em algum momento da trama, alvo de chacota exclusivamente por serem homens afeminados. É essa a função de personagens gays em programas de TV? Mesmo em 2021?

“Atuei para quem estava no estúdio. (…) Eles se divertiam, davam ideias e me incentivavam”, escreveu Betti. E pelo “Espero não ter causado danos à causa” que acompanha o texto, mesmo que tenha se dito orgulhoso do que criou, ele sabe que viver uma caricatura não foi uma boa escolha.

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Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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