Parada Ao Vivo educa população LGBTI mais jovem

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Aconteceu no último domingo (14), a primeira edição inteiramente virtual da Parada LGBTI de São Paulo comandada por um grupo de youtubers.

Embora não seja a primeira vez que ouvimos falar da Parada Ao Vivo, nos anos anteriores o evento funcionava como uma cobertura do que acontecia na Avenida Paulista.

Por culpa do coronavírus, a marcha foi adiada com alguns incertezas, como já te contamos aqui.

História LGBTI

Acostumado com o formato das ruas, fui positivamente surpreendido com o esforço de parte dos youtubers de educar a população sobre a história do movimento LGBTI.

Além de detalhar a revolta de Stonewall, um vídeo previamente gravado contou a história dos principais nome para a resistência que criou o mês do orgulho LGBT.

Sobre a nossa parada, houveram vídeos fazendo uma retrospectiva sobre os temas e uma explicação de como eles são escolhidos. ONG e iniciativas que cuidam da população do arco-íris também foram abordadas.

Recados… que não diziam muita coisa

Durante a transmissão, alguns artistas e youtubers que não foram escalados para apresentar o evento apareceram dando recados, mas boa parte deles não dizia muita coisa além do “obrigado pelo convite” e o batido “eu apoio essa causa”.

Mesmo que durante todo evento houvesse um QR Code pedindo doações para a Parada da Soliedariedade, encabeçada pela mesma ONG que organiza a Parada SP e que pretende arrecadar doações em dinheiro, itens de higiene pessoal e alimentos para pessoas em situação de vulnerabilidade, foram poucos os convidados que incentivaram a doação.

Mesmo recados internacionais, feitos por três artistas aliados e não LGBTs, tinham o mesmo texto, algo como “Espero que essa situação passe logo para que estejamos juntos nas ruas no ano que vem”. Pouco foi dito sobre a importância de continuarmos nas ruas, por exemplo.

Apresentadores avulsos

Se por um lado tivemos Loiue Ponto, Canal das Bee e, de certo modo, Spartakus com vídeos interessantes sobre história e direitos LGBTI, por outro tivemos alguns youtubers que ficaram avulsos e quase sem função fora dos debates.

Mandy ficou responsável por contar algumas histórias de amor, o que parece uma boa premissa, mas pareceu meio solto na programação e não prendia nossa atenção por muito tempo.

Jean Luca foi o que mais destoou de todo grupo. Suas aparições tinham todas as características típicas de youtubers mais jovens e cheios de energia que beiravam o forçado e talvez tenha funcionado para os mais novos. No próprio quadro, Jean fazia um game contando uma história “divertida”/”inusitada” sobre um colega youtuber fazendo com que a gente tentasse adivinhar quem passou por aquilo.

Loralay Fox, que sempre foi exaltada pela comunidade pela eloquência, ficou limitada a uma única entrevista com Mel C, uma aliada (falaremos disso a seguir). Curta e bem objetiva, a entrevista também não trouxe nada novo para quem acompanha a cantora desde Spice Girls, mas ao menos serviu como entretenimento.

Nataly Néri, que devo admitir que não conhecia, não teve nenhum quadro a parte com muito destaque, mas foi uma grata surpresa e participou de boa parte dos debates, dando sempre opiniões interessantes, fossem elas sobre o movimento LGBT ou sobre o movimento negro.

As intenções da escalação não ficaram claras. Se por um lado parecia uma grande promoção da Dia Estúdio sobre a quantidade de youtubers que eles trabalham, por outros, pareceu haver um esforço sincero em diversificar a transmissão com diferentes letras da sigla e incluindo negros.

A parada é nossa ou dos aliados?

É extremamente importante que tenhamos aliados na nossa eterna luta por igualdade e, sem dúvidas, ficamos mais fortes com mais gente por perto compartilhando do ideal de que nós existimos e merecemos respeito.

Dito isso, qual é o papel de um aliado e por que diabos muitas vezes eles recebem mais destaque do que os próprios LGBTs em algumas situações?

Como já citado, Mel C foi entrevistada por Lorelay. Apesar de alguns rumores antigos, a cantora sempre se posicionou como uma aliada. Por que não entrevistar Ricky Martin, que também apareceu na live e, como homem gay, pai de três crianças, teria muito mais a acrescentar num dia importante como foi domingo ao invés de uma mulher hétero, por mais aliada que possa ser?

Thelma, vencedora da última edição do BBB, também foi outra aliada que ganhou bastante destaque na transmissão. Escalada para debater sobre racismo, a médica até tentou falar sobre mulheres trans negras, mas não se aprofundou e nem poderia por não ser uma mulher trans negra.

Por que não escalar um LGBT negro para engrossar o coro ao lado de Spartakus e Nataly? Linn da Quebrada, Jup do Bairro, Ícaro Silva, dentre outros nomes, estavam todos com agenda lotada?

A organização errou e nós também erramos regularmente ao dar mais voz aos aliados do que as pessoas que estão dentro da nossa comunidade.

Desconexão entre organizadores

Havia indícios de que APOGLBT e Dia Estúdio não estavam juntas na organização da Parada SP Ao Vivo e mais deles apareceram durante a transmissão do evento.

Embora houvesse recados dos organizadores da Parada LGBT de São Paulo, o evento virtual não parecia ter mais nenhuma conexão com o evento que toma as ruas todos os anos.

As vésperas da Parada Ao Vivo, a APOGLBT nada sabia sobre o que aconteceria na transmissão e mesmo prometendo um release conjunto para imprensa na véspera, nada divulgou sobre a programação.

A ONG também não quis aproveitar o espaço da live para trazer mais transparência sobre o que é e o que faz. Há alguns anos houve uma polêmica sobre o que era feito com o dinheiro doado a eles, essa teria sido a oportunidade perfeita para mostrar que o trabalho deles não se resume ao mês do Orgulho, mas não o fizeram e não sabemos se foi por falta de espaço.

Comentários

Renan Oliveira
Renan é um jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.
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