Público mais jovem renova Parada LGBTI

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É oficial: a Parada do Orgulho LGBTI nem de longe lembra o que foi um dia. Mesmo que o objetivo ainda seja dar visibilidade aos nossos, o evento mudou e isso nem de longe é ruim.

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A primeira vez que decidi ir para uma “Parada Gay”, como erroneamente ela era chamada antes, o formato era outro:

Os carros, em sua maioria, representavam as boates mais famosas de São Paulo. Dava para ler Blue Space, Tunnel e Bubu Lounge mesmo que estivéssemos muito longe dos carros.

As grandes atrações eram DJs que por vezes vinham de fora para se apresentar nessas baladas e acabavam ficando para a maior Parada do Orgulho do mundo.

O público se fantasiava, alguns para não serem reconhecidos e outros por pura ferveção. Os protestos eram por meio de longos beijos e pouca roupa que escandalizavam os mais retrógrados.

Mas mais de dez anos se passaram e muita coisa mudou sem que, de novo, isso seja algo ruim.

Nova forma de (r)existência

A luta da geração anterior, talvez a minha geração, parece ter dado certo e as máscaras e fantasias são mais raras hoje em dia. O que é visto são pessoas claramente mais jovens e as cores LGBTI.

Seja numa bandeira junto ao corpo, numa peça de roupa, na make ou apenas alguns riscos no rosto, a grande maioria das pessoas que estão na parada hoje quer mostrar o Orgulho de ser e de, ao menos naquele momento, pertencer.

Embora os beijos ainda existam, o modo de protestar também parece ter mudado. Já há alguns anos a quantidade de cartazes com frase de ordem voltou a crescer.

Se em 2017 e 2018 Temer era alvo de protestos, neste ano, como não poderia deixar de ser, gritos contra Bolsonaro eram entoados aos quatro cantos da Av. Paulista.

O discurso de “carnaval fora de época” ainda existe, mas já não incomoda mais. A cada ano os participantes se sentem mais a vontade para celebrar quem são – e estar a vontade na própria pele mesmo quando ainda nos dizem que é errado é motivo para festejar.

Os DJs se foram, mas cantoras chegaram

Outra grande mudança foram as atrações. Os DJs se foram junto com os carros de boates, mas no lugar deles chegaram cantoras queridas pela nova geração de LGBTI, como Luiza Sonza e Iza, além dos artistas que de fato nos representam, como Gloria Groove, Jaloo e Aretuza Lovi.

Já não é mais possível ler nomes de boates nos carros, ele agora são de empresas patrocinadoras da Parada.

São os patrocinadores, inclusive, que são responsáveis por bancar os artistas convidados e os possíveis gastos com produções e efeitos.

Neste ano, por exemplo, o trio da Avon teve fumaça colorida pouco antes da apresentação de Gloria Groove.

Mudanças são bem-vindas

Nem de longe a intenção desse texto é ser saudosista. As mudanças que aconteceram na Parada refletem a evolução dos nossos e são muito bem-vindas.

Há alguns anos, tinha quem aguardasse o ano inteiro para ter o privilégio de andar de mãos dadas pelas ruas, por sorte, não é mais assim.

Quando comecei a ir na Parada, o casamento entre pessoas do mesmo sexo não era permitido, personagens LGBTI era escassos em produções nacionais e não se beijavam, a transexualidade ainda era considerada doença e a criminalização da LGBTIfobia ainda era um sonho distante.

Com passos curtos e tímidos, como os de um bebê que cansou de engatinhar, os direitos LGBTI estão avançando e isso reflete muito na nova geração e na maneira com que eles se portam na parada e fora dela.

Embora muitos possam não ter dimensão da importância de Stonewall, que foi tema deste ano, é um alívio perceber que a garra e o Orgulho está presente na nova geração de LGBTI.

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