Especial dia das mães: “Não sei falar como mãe de gay porque sou mãe de viado”

“Minha casa às vezes parece um albergue.” conta Cris. Foto: Rosan Franco / Trouble

No último dia 6 de outubro uma postagem emocionada fez com que o facebook de Cristiane Franco praticamente explodisse. Foram cerca de 27 mil likes e mais de 3 mil pessoas que compartilharam da dor e indignação dela por ter perdido Diogo, 17, e por “mais uma vida perdida para o fundamentalismo religioso”.

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O jovem morava em uma pequena cidade de Minas Gerais, próxima a Belo Horizonte, e após anos de abusos verbais e físicos de uma família religiosa acabou tirando a própria vida. “Conversava com ele há oito meses e acreditava que já tínhamos revertido. Estávamos conversando sobre ele vir morar comigo quando completasse 18 anos. Ele estava muito perto da liberdade dele”, conta. Mas a história de Cristiane com jovens LGBT+ é mais profunda.

Cris se denomina como ativista por direitos humanos e sempre teve afinidade com os LGBT+. “Da infância até adolescência, meus melhores amigos sempre foram gays e eu acompanhava o sofrimento deles”.

Quando o segundo filho dela, de três filhos biológicos, saiu do armário, aos 14 anos, os laços com a militância ficaram ainda mais estreitos. Ela conta que Rosan se assumiu através de uma carta e foi então que ela começou a se questionar sobre transparência. “Meu chão abriu porque ele se desculpava e eu me perguntei onde eu errei, não pela sexualidade, mas por ele ter se desculpado. Eu sempre ensinei a ele que nós precisamos ser quem somos”.

Foi então que Cristiane começou a se engajar ainda mais. Com a força das redes sociais e uma linguagem mais jovem, ela se tornou referência para os amigos do filho e agora era ela quem abrigava jovens LGBT+.

Também por causa da afinidade com jovens, ela começou a ser chamada para participar de palestras, debates e saraus. Mas sempre trabalhando com desconstrução e liberdade. “Eu sou pé na porta. Não vem falar comigo como mãe de gay, me coloca para conversar como mãe de viado porque aí eu vou conseguir me fazer entender. Se meu filho se denomina como viado, é assim que tem que ser”, diz ela.

Dentre tantas, uma das histórias que se destaca é a de Vitor, 18, que Cris trata como se fosse filho biológico. Tal como Diogo, ele sofria abusos por conta da sexualidade e, ao atingir a maioridade, foi morar com Cristiane. “Ele é um marco para mim. Consegui salvá-lo antes que acontecesse o pior”.

“Minha casa às vezes parece um albergue. Hoje somos em 7, mas aos finais de semana isso se multiplica, pois é quando chegam os amigos e namorados”, conta Cris que deve se casar em dezembro e encara o filho caçula, Ruan de 4 anos, como o maior desafio.

“Ele não faz distinção. Em casa tem homem com homem, mulher com mulher, mas ele não se incomoda, apesar dele perceber que para sociedade lá fora tem algo errado. Na escolinha eu brigo bastante por questões de cor rosa e azul ou brinquedo de menino e menina”, diz Cris que é vista pela diretora como subversiva.

“No trabalho me questionam se eu não tenho medo de fazer as coisas que eu faço e minha resposta é ‘não’. Eu falo com toda a certeza que se acontecer algo eu não vou me importar. O que eu não consigo é ver e ficar calada”, finaliza.

Nota: Texto publicado originalmente para o Gay Troller em novembro de 2015 e republicado em especial para o dia das mães. O Gay Troller está temporariamente inativo, mas deve voltar reformulado em breve.

Sobre o Autor

Renan Oliveira
Renan Oliveira
Renan um é jornalista de humor ácido (é bem ruim pela manhã) que acredita que informação é uma das armas mais poderosas contra a LGBTfobia.

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